1.
Um
soldado do setor administrativo do Exército é mandado para uma missão num forte
próximo à frente de batalha. Deveria trazer de volta uma simples fotografia. No
caminho enfrenta grandes perigos. Mas a maior aventura é o encontro de um
grande amor.
Os
olhos do soldado Gomes ardiam com a poeira e se mantinham quase fechados, mesmo
atrás dos óculos escuros. O sol forte do
meio da tarde fazia da paisagem desértica um misto de fantasia e realidade.
Não
sonhou ser soldado. Se pudesse jamais teria saído de sua terra. Mas a guerra
foi inevitável quando a fronteira de seu país foi invadida e tropas enviadas
para proteger e tentar recuperar o território perdido. Convocaram civis e ele estava numa idade em
que não houve como escapar, mesmo porque era reservista. Serviu o exército aos
dezoito anos, como muitos adolescentes que tinham pressa de se tornar adultos,
mas não seguiu carreira. Deixou o exército e conseguiu uma colocação como
auxiliar de escritório. O emprego anterior garantiu uma vaga administrativa,
evitando que fosse parar no 'front', como muitos de seus amigos.
Foi
culpa de Gomes que a fotografia da esposa do comandante, General Rebelo,
tivesse seguido num malote. Como assistente do general, deveria verificar todos
os documentos que colocava no malote. Não percebeu que a foto presa num clips
junto ao ofício e documentos - que o general lhe entregara para encaminhar ao
General Milton na frente de batalha - estava ali por engano. Burrada maior foi
se auto-acusar quando viu o general procurando pela foto feito louco. Podia ter
ficado quieto, mas tinha que dizer que a foto estava no malote para o General
Milton. Pensou que o comandante pudesse escrever uma nota pedindo a foto de
volta, mas jamais imaginou que fosse mandá-lo até o forte buscar a malsinada
imagem. Agora estava ali, sozinho, num caminho poeirento e perigoso, com
saudade da sua escrivaninha e do alojamento seguro.
Lembrou-se
de uma soldada que viu quando estava por sair para a missão inusitada. Foi no
rancho ao lado do quartel, onde passou para apanhar alguns víveres para a
viagem. A nova rancheira tinha olhos lindos. O riso incontido dela quando lhe
disse o motivo da viagem o fez sentir-se tolo como um menino que recebeu
castigo e conta ao coleguinha. Era um sorriso espontâneo por trás daqueles
dentes branquinhos e retos, que fazia o seu rosto brilhar como um dia de sol.
Como Gomes queria tê-la conhecido antes da guerra. Imaginava como aquela mulher
devia ser maravilhosa sem o boné, com os cabelos soltos. Quando voltasse da
missão iria procurá-la e tentar marcar um encontro para o seu dia de folga. O
problema seria conciliar as folgas de ambos. Não, o maior problema seria se
aproximar dela, pois era muito tímido.
Nem
percebeu que o cavalo seguia o caminho quase sem guia, pois afrouxou as rédeas
ao divagar sobre os acontecimentos recentes. Precisava ser mais atento, pois
fora uma distração que o colocara naquela encrenca. Devia saber que a foto da
mulher do general nada tinha a ver com os outros documentos no malote. Quando
viu a foto sabia que era a esposa do comandante, pois a conheceu numa festa em
que foi chamado para servir como garçom. Era uma gorducha dos dentes salientes
como de coelho. Nem mesmo o aparelho prateado, que a deixava ainda mais feia,
mudava a saliência daqueles dentões. Talvez fosse porque ela não parava de
mostrar um sorriso falso a todos, parecendo sentir-se como a rainha da
Inglaterra, recebendo convidados tão soberbos quanto ela. Quando viu a foto da
megera junto aos documentos tratou logo de enfiar no envelope sem ler direito o
que dizia a mensagem.
-
Talvez o comandante esteja mandando uma ordem para que o 'front' volte os
canhões para a sua casa e destrua a cara feia da bruaca - pensou.
Como
detestou voltar ao exército. Havia esquecido da prepotência dos militares. Nem
imaginou que fosse se meter numa enrascada tão grande. O general gostava mesmo
da esposa e quase o atirou pela janela quando confessou que a foto da gorda
havia seguido no malote. Mandou-o pegar um cavalo e consertar o erro, mesmo
sabendo que o estava mandando para uma viagem de três dias de ida e outro tanto
de volta, mesmo sabendo que poderia estar mandando seu assistente para a morte.
Nem mesmo um jipe lhe deu para a viagem. As estradas estavam destruídas e um
jipe viajando sozinho seria alvo fácil, foi o que lhe disse. Gomes, no entanto,
suspeitava que o general queria vê-lo morrer e, por isso, não queria perder um
veículo tão útil. Dava mais valor ao jipe que a ele.
Caiu a
primeira noite e Gomes parou para dormir. Não podia acender fogueira, pois isso
atrairia inimigos. Deitaria próximo ao cavalo, que serviria de guarda se alguém
se aproximasse. Entrou no saco de dormir e ajeitou o fuzil junto ao corpo, de
um modo que pudesse atirar deitado em caso de emergência. Já havia comido sua
ração noturna e não podia comer mais nada, embora seu estômago parecesse estar
vazio. Sentiu o corpo cansado pelo longo dia. O cargo administrativo não o
poupava do treinamento diário e o sargento não dava moleza. Os soldados
acordavam antes do nascer do sol e eram submetidos a exercícios exaustivos e,
depois, simulações de combates tático e corporal. Naquele dia Gomes havia 'morrido' duas vezes,
uma por tiro, numa movimentação estratégica em que resolveu atravessar uma
praça sem 'limpar' o campanário da igrejinha e, outra, num combate
corpo-a-corpo em que o sargento - travestido de inimigo - o surpreendeu pelas
costas e quebrou-lhe o pescoço antes que pudesse esboçar qualquer reação. Ainda
bem que eram apenas simulações. Somente
depois do treinamento é que ia para o setor administrativo. Isso o poupava de
alguns exercícios extras, mas fazia com que os outros soldados estivessem mais
bem preparados que ele. Agora Gomes temia que o seu treinamento não fosse
suficiente numa situação de combate real.
Era
vergonhoso, mas sentia muito medo naquele momento. Medo e fome. Não podia
comer, senão faria falta nos próximos dias. Ainda precisava viajar mais dois
dias. Talvez encontrasse alguma lebre ou lagarto durante a viagem. Isso seria
um banquete. Dormiu pensando
2.
O
inimigo gritou num idioma incompreensível, gesticulando para que Gomes se
levantasse e saísse do saco de dormir.
Que
decepção ser feito prisioneiro ainda no começo da viagem. Era o preço que
pagava pelo pouco treinamento. Agora sofreria as conseqüências. Levantou-se e
começou a caminhar para onde o soldado inimigo indicava. Com o sono profundo
não percebeu que o fuzil foi retirado de suas mãos antes que acordasse. O
maldito o havia surpreendido de verdade. Lembrou que devia ter dormido com um
olho aberto, como dizia o sargento, evitando o vexame de ser capturado tão
facilmente. Era mesmo um soldado deplorável, um simples fantoche, dominado pelo
inimigo, sem qualquer chance de reação. O sargento tinha razão quando o chamava
de 'combatente da máquina de escrever', que era o único instrumento que
conseguia dominar, que não teria qualquer utilidade.
Sentiu
um chute forte na batata da perna, caindo de joelhos no chão. Era o comando
para parar e se ajoelhar. Não ouviu vozes de outros inimigos, supondo que o
soldado estava sozinho. O maldito se aproximou e encostou o fuzil na nuca de
Gomes. Não o faria prisioneiro, pois sozinho não havia como escoltá-lo. Não
havia tempo para orações e nosso herói percebeu que iria morrer naquele
momento. Nem sabia no que pensar, pois a consciência do momento extremo o
concentrava exatamente no que estava acontecendo. Morreria sem lutar,
fracassado e derrotado, como no treinamento do dia anterior.
Ouviu
o clique do cão do fuzil atingindo o projétil. Para sua surpresa não detonou,
devia estar molhado, ou úmido, ou qualquer coisa que o valha. Não se pensa no
que causou a falha de um tiro
Virou-se
num movimento ligeiro, passando uma rasteira no maldito, que caiu ao seu lado.
Antes que pudesse pensar quebrou-lhe o pescoço, como o sargento havia feito no
dia anterior. Só que agora era pra valer. Pegou o fuzil e vasculhou o lugar em
busca de outros inimigos. Não havia mais ninguém, só ele e o desgraçado. O inimigo estava ali, morto, diante de seus
olhos espantados. Caiu de joelhos e chorou. Era um moço como ele, mas não ia
voltar para casa. Gomes não podia pensar assim. O desgraçado queria matá-lo.
- Era
ele ou eu! - falou consigo mesmo. - Um dos dois tinha que morrer e Deus quis
que fosse ele. A arma falhou bem no momento da execução e o incauto ficou ao
alcance do meu golpe.
Não se
sentia melhor por isso. Nunca havia matado ninguém antes. Tratou de pegar suas
coisas e montar no cavalo antes que chegasse mais algum inimigo. Saiu a galope,
como se fugisse daquela cena horrível, que jamais esqueceria.
3.
Sentiu
o estômago doer. Com a tensão por que passou havia esquecido até da fome. Agora
que a adrenalina começava a baixar sentia vontade de tomar um café bem quente
como aquele que sua mãe fazia quando era menino. Sentia falta da mãe em tudo
que fazia na vida. Ela e o pai morreram muito cedo e teve de aprender a se
virar sozinho.
O
segundo dia da viagem demorou a passar. A surpresa da manhã o fez ficar atento
a cada detalhe do caminho. Em cada moita pensava encontrar outro inimigo com
arma em punho pronta para matar, para vingar a morte do soldado com o pescoço
quebrado que deixara para trás. Mas aprendeu a não se entregar com facilidade.
O dedo no gatilho do fuzil estava pronto para atirar ao menor sinal de
movimento
4.
Tarde
quente, sol escaldante. O quartel era enorme e muito bem vigiado. Dezenas de
sentinelas espalhados ao longo de quilômetros de muro. Camila era uma soldada -
ou um soldado, como se chamavam todos os recrutas - encarregada de levar água
aos sentinelas. Passava em cada posto de vigília trocando um cantil vazio por
outro cheio. Isso implicava num trabalho enorme, pois devia levar uma grande
quantidade de cantis num carrinho empurrado até um ponto e, a partir dali, ir
distribuindo entre as sentinelas mais próximas. Depois trazia de volta o
carrinho com os cantis vazios, lavava e reabastecia, levando para outro lado do
quartel. Ao terminar o dia estava exausta, pois o trabalho era praticamente
ininterrupto. Quando chegava ao último posto, o primeiro já estava com o cantil
vazio.
Foi
numa dessas passagens de troca que a soldado Camila parou para descansar no
posto de sentinela do paiol de munições. Era um local mais retirado e a
caminhada até ali havia sido realmente extenuante. O soldado de guarda riu
quando ela sentou-se no chão e retirou os coturnos. Seus pés estavam calejados,
nem de longe lembrando os pés bem cuidados que tinha antes da guerra. O
sentinela, percebendo seu cansaço, sugeriu que entrasse no paiol e descansasse
por alguns minutos. O sargento passara recentemente e não regressaria antes de
inspecionar todos os postos. Isso levaria horas. Não faria mal se ficasse ali
por algum tempo. Ele daria cobertura.
Entrou
no paiol. A construção que por fora parecia uma casa comum era, por dentro, um
grande salão, com pé direito de uns seis metros, o que tornava o ambiente ainda
maior. O piso era rebaixado em relação ao exterior, pois uma explosão ali
deveria ser projetada para cima e não para os lados, evitando a destruição do
entorno. Por isso não dava para imaginar que fosse tão alto olhando de fora.
Estava encravado uns três metros no solo.
Procurou
um canto e se deitou no chão, embaixo da escada. Adormeceu embalada pelo
silêncio do lugar e por seu próprio cansaço, usando um cantil como travesseiro.
O treinamento militar lhe dera capacidade de dormir nos locais mais insólitos
que pudesse imaginar, desde uma trincheira até um mangue, cercada de sons
estranhos ou perigosos. Aquele chão de cimento à sombra lhe parecia ser de um
conforto ímpar, assemelhando-se para ela ao leito de uma princesa. Pedira ao
sentinela que a chamasse uns quinze minutos depois.
Súbito
foi despertada por um estampido do lado de fora. Calçou rapidamente os coturnos
e subiu a escada. Ao chegar à guarita viu o corpo do sentinela caído, morto com
um tiro no peito. Instintivamente abaixou-se e pegou a metralhadora do soldado
morto.
Ao se
levantar viu muitos inimigos saindo da mata
5.
Estava
difícil manter a posição se o reforço demorasse a chegar. Os tiros vinham de
várias direções e a soldado Camila não poderia ficar viva por muito tempo.
Finalmente, depois de alguns minutos, ouviu um grito em seu idioma avisando
para não atirar pela porta leste, porque era um reforço chegando.
Para
sua surpresa o reforço era ninguém menos que o General Rebelo. O Comandante
chegou cansado, mas foi um reforço valioso, pois Camila estava quase sem
munição. O general mandou que entrasse no paiol e trouxesse todos os pentes de
metralhadora que pudesse carregar. Ela obedeceu. Desceu e subiu a escada o mais
rápido que pôde, trazendo dezenas de pentes, munição suficiente para manter o
posto por muito tempo. Estranhou que o reforço estivesse demorando tanto. Por
que somente o general havia vindo? Onde estariam todos?
- Por
que o reforço não chega? - gritou nervosa.
-
Estão todos mortos, soldado. Somos só nós dois.
- Como
mortos, Senhor? São milhares de soldados!
-
Mandamos tropas para várias frentes. Nosso contingente ficou reduzido. E ainda
saíram pelotões para treinamento na selva, só voltam amanhã.
- E
agora, Senhor? O que faremos?
-
Vamos tentar abrir um buraco na artilharia deles. A sua presença aqui foi uma
vantagem para nós, pois eles querem tomar nosso paiol. Todos os sentinelas
foram mortos ao mesmo tempo. Os poucos soldados no quartel foram dominados e
executados. Eu e mais alguns oficiais conseguimos manter um posto de
resistência no Comando. Foi quando ouvi os tiros nesta guarita e vim
Enquanto
Camila dava cobertura pelos outros lados o general deu tiros certeiros e matou
os dois soldados que estavam na saída planejada por ele.
-
Soldado, é agora! Eu lhe dou cobertura e você sai por ali. É a nossa única
chance. Corra o mais rápido que puder e traga reforços.
- Mas
General... e o Senhor?
- Vá
logo. Eu não tenho forças para correr tanto quanto você. Tenho munição para
manter o inimigo longe do paiol até você voltar. Eles não vão entrar aqui
nunca.
O
general levantou-se e disparou com a metralhadora em direção aos inimigos,
fazendo-os se esconder. Fez sinal para Camila, que saiu da guarita,
atravessando o pequeno cerrado e se embrenhando na mata antes que os inimigos
percebessem a sua saída, pois o general não parava de atirar.
Correu
o mais rápido que podia. Sabia que estava no rumo norte, mas não fazia a menor
idéia de como poderia encontrar a tropa. Com sua boa forma física sabia que
percorreria os dez quilômetros sem parar, mas na mata levaria mais de uma hora,
isso se não aparecesse nenhum paredão para escalar ou descer. Se estivesse
próxima do pelotão certamente os soldados perceberiam a sua aproximação. O
problema seria se encontrasse um inimigo. Continuou correndo e o barulho dos
tiros foi ficando cada vez mais distante, até que já não os ouvia.
Depois
de uns dez ou quinze minutos de corrida ouviu uma grande explosão e o chão
tremeu. Parou e ajoelhou-se exausta. Já não precisava mais correr. O valente
General Rebelo havia explodido o paiol. Jamais o entregaria. O quartel estava
perdido. Não tinha para onde regressar, pois fracassara na missão de buscar
ajuda. A noite caíra e Camila estava sozinha na mata. Não sabia mais se era
soldado ou uma menina assustada. Deitou no chão e chorou.
Ficou
ali, parada, até que a tropa chegou, meia hora depois. A explosão fora sentida
até onde estava o pelotão. Ouviu o barulho da marcha acelerada e colocou-se em
estado de alerta, escondida atrás de uma árvore. Quando viu que eram seus
compatriotas apresentou-se e relatou o ocorrido ao Oficial. Este, diante do
relato de Camila, determinou que se montasse acampamento ali mesmo, pois a
noite já os havia alcançado e nada mais podia ser feito naquele dia se o
quartel estava sob o poder do inimigo.
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