1.
Estacionei e desci do
carro apressado como sempre, pensando na reportagem que devia fazer. Como
repórter novo eu sabia que não conseguiria uma matéria de capa tão cedo. O
chefe de redação, sempre à beira de um ataque de nervos, mandou que eu
investigasse um tal ‘Cristo da periferia’ por ser uma
matéria que se podia encaixar em qualquer espaço que sobrasse no fechamento da
edição. Ademais era um tema que não se esgotava naquela semana e poderia ficar
para outra edição se não coubesse nesta. Uma tragédia teria o maior destaque,
até com capa. Filhos que matam os pais, pais que matam os filhos, assaltos,
seqüestros, desastres, qualquer tema poderia ser mais interessante. Mas o chefe
tinha seus preferidos e eu devia estar satisfeito por ter um emprego. Os
repórteres de destaque tinham fotógrafo e motorista. Eu trabalhava sozinho e
ainda tinha que usar meu próprio carro se não quisesse tomar ônibus.
Envolto nesses
pensamentos nem percebi que uma bola, jogada por
alguns moleques que brincavam na rua, veio parar perto de mim. Um dos meninos
falou comigo de longe e, com um sorriso, provocou:
- Você ainda consegue
chutar uma bola sem tirar o joelho do lugar?
Chutei meio
desengonçado, com raiva daquele menino atrevido que me tratou como um velho
fora de forma. Ele não era mais criança, devia estar trabalhando ao invés de
ficar ali brincando na rua. Por isso as pessoas se tornam marginais, pensei.
Ficam aí brincando e não se preparam para a vida. Depois roubam e matam para
poder ter as coisas. Ou então arranjam um emprego que não lhes garante o
sustento. E continuam marginalizados, mesmo com um emprego.
Triste realidade a dos
brasileiros. Em países do primeiro mundo uma pessoa pode trabalhar numa
profissão modesta e viver dignamente. Tenho amigos que vivem no exterior e
estão formando um belo patrimônio trabalhando como lavadores de pratos,
camareiros, ou outras profissões menos dignas dos diplomas que conquistaram
aqui no Brasil. São profissionais que desistiram da profissão antes mesmo de
começar. Levam a esperança de conquistar um bom dinheiro e voltar para começar
suas profissões condignamente. Alguns jamais voltam. Aqui não é qualquer
trabalho que assegura um rendimento decente. Qualquer dia ainda vou fazer uma reportagem
sobre isso, quando eu tiver liberdade para escolher as matérias que escrevo.
Hoje não posso nem pensar nisso, porque o meu chefe faz de mim "gato e
sapato", mandando-me para todos os lugares, sempre com matérias pouco ou
nada interessantes.
Deixa isso pra lá,
agora tenho que pensar na reportagem! – falei comigo mesmo, organizando os
pensamentos. O joelho doía um pouco, mas evitei mancar para não ser gozado pela
molecada, que me olhava com ar de deboche e curiosidade, pois não voltaram a
jogar, mesmo depois que devolvi a bola.
- Vocês sabem onde mora
a Dona Irene?
Com facilidade descobri
o endereço. A Vila Nazaré era um daqueles conjuntos habitacionais com ruas
numeradas e casas iguaizinhas. Isso facilitava a localização, pois era só
seguir a numeração das ruas e das casas para chegar ao destino. Até mesmo as
praças eram numeradas e distribuídas de forma harmônica na vila, proporcionando
um pouco de diversão para aquela gente pobre que, sem nenhuma opção de lazer,
gastava o tempo ali mesmo jogando futebol, vôlei, ou assistindo quem jogava, ou
simplesmente caminhando ao redor da praça, vendo as pessoas e encontrando os
amigos. Com casas tão pequenas não era normal receberem visitas.
Cheguei à casa. Embora igual às outras, dava para perceber que os
moradores tinham um padrão de vida um pouco melhor que os das outras casas. A
cerca simples havia sido substituída por um muro. A cobertura prolongada até o
muro propiciava uma pequena garagem. Embora não houvesse nenhum carro no
momento, suspeitei que o veículo estivesse com o marido no trabalho.
Fui recebido com
alegria pela Dona Irene, que parecia estar esperando visita, pois a maquiagem
estava muito carregada, com aquelas sombras azuis sobre os olhos e o batom
exageradamente vermelho. Os brincos combinavam com o colar de pérolas falsas, meio inadequados para ficar
Enquanto servia um
café, tentando parecer requintada, Dona Irene me contava que o marido trabalha
numa indústria há quinze anos e, graças a muito empenho e dedicação, conseguiu
ir galgando cargos e hoje é encarregado. Isso lhe garante um bom salário, mas
exige dele dedicação integral. Com um orgulho indisfarçável contou como o pobre
homem era chamado a qualquer hora do dia ou da noite para resolver problemas na
fábrica e, também, como ela pôde deixar o emprego de costureira, pensando agora
em ter sua própria confecção. Já comprara algumas máquinas e pretendia
construir uma edícula nos fundos do pequeno terreno, num espaço que a mim
pareceu não caber nem mesmo o minúsculo canteiro de salsinhas que estava
plantado ali. Mas na cabeça e na empolgação da Dona Irene aquele espaço iria
abrigar um grande salão, com dezenas de empregados, que a deixariam ainda mais
"rica".
Invejei a sua
capacidade de ser feliz com tão pouco e de se realizar dentro das pequenas
oportunidades que tinha.
2.
Mas o motivo que me
levou àquele lugar não foi a vida da Dona Irene.
Depois de tomarmos o café ela começou a me contar que havia ligado porque era a
única que tinha telefone nas redondezas. Mesmo nos dias de hoje, quando um
telefone sai quase de graça, a conta do consumo inviabiliza esse luxo para a
maioria dos moradores da vila. Dona Irene me falou com riqueza de detalhes como
a Dona Maria e o filho Emanuel, seus vizinhos, levavam a vida. Ele é
carpinteiro e vive de pequenas empreitadas que faz. Ela, viúva, trabalha como
diarista e também lava roupas durante a noite para conseguir pagar a prestação
da casa e sobreviver. Eles vieram de Belém do Pará há alguns anos e sofreram
muito com a morte do Seu José. O menino era muito pequeno, quase uma criança,
mas assumiu as ferramentas do pai e conseguiu entregar todas as encomendas.
Depois de algum tempo o menino começou a demonstrar uma cultura maior do que
era normal naquele lugar. Os vizinhos passaram a consultar Emanuel sobre seus
problemas e as pessoas confiam muito nos seus conselhos. As coincidências dos
nomes dos pais e, também, do nome da cidade em que nasceu tinham levado Dona
Irene a ligar para a redação e pedir uma reportagem. Não que ela acreditasse
que aquele menino fosse a reencarnação de Jesus, mas
achou que daria uma boa matéria.
Enquanto ouvia aquela
mulher falando ia me dando uma raiva tão grande do meu chefe, que foi difícil
não sair dali correndo e pedir demissão daquele emprego ridículo. Uma
reportagem sobre um maluco que pensa que é Jesus era tudo o que eu precisava
para me arrepender de ter feito a maldita faculdade de jornalismo. Com a nota
que tirei no vestibular eu poderia ter feito administração, contabilidade ou
qualquer outro curso que me garantisse um emprego monótono num escritório. Mas
o meu espírito de liberdade tinha que falar mais alto. A versatilidade que tem
um jornalista, que pode trabalhar em qualquer lugar, que pode ser redator,
repórter ou apresentador, foi um fator decisivo na minha escolha. Encantava-me
a magia de levar a notícia a todas as pessoas, de qualquer lugar do universo.
Também me influenciaram fatores menos nobres, como o fato de um dos homens mais
ricos e poderosos deste país ser um jornalista, Roberto Marinho, que construiu
um verdadeiro império da comunicação.
Só não me contaram que
eu acabaria trabalhando numa revista de segunda linha, disputando a vaga com
centenas de jornalistas que, como eu, se deixaram levar
pelos mesmos sonhos. Não me contaram que eu iria trabalhar com um chefe
estressado, que colocaria defeito em meu trabalho e me mandaria fazer as
reportagens mais inúteis que já vi na vida.
Quando não se tem opção
a gente faz o que é preciso fazer. Ouvi tudo o que a
Dona Irene tinha para contar e pedi a ela para me apresentar a Dona Maria e seu
filho Emanuel. Eu faria umas fotos e uma entrevista rápida. Depois tomaria
alguns depoimentos de vizinhos, com destaque para a vaidosa Dona Irene e a
reportagem estaria pronta para ocupar o espaço sem destaque que o chefe me
reservava quando não tinha nada melhor para publicar. Desse jeito eu cumpriria
meu papel de repórter medíocre com uma ótima reportagem sobre um assunto
medíocre.
3.
Chegamos à casa da Dona
Maria. Fui entrando logo atrás da Dona Irene, que chegou como íntima da
família, abrindo o portão e entrando como se fosse sua casa. O lugar era muito
humilde, uma mistura de casa e oficina de carpinteiro, com varais de roupa por
todo canto. Entre um varal e outro as duas iam conversando, a Dona Irene
contando que havia trazido um repórter para falar com o "Jesus" e a
Dona Maria querendo saber mais detalhes. Tinha um ligeiro jeito de falar que a
mim pareceu nordestino. Confesso que eu não sabia diferenciar o sotaque
nortista do nordestino. Acho que até hoje ainda não consigo distinguir. Sabia
que ela viera de Belém, que fica no Norte, mas seu jeito de falar não pareceu
diferente do das pessoas vindas do Nordeste e que vivem muito tempo aqui no
Sul. Não têm aquele sotaque carregado, mas dá para perceber que não são daqui.
Eu ia acompanhando a conversa e buscando encontrar a "Nossa Senhora"
no meio daquela confusão de varais. Num lugar pequeno como aquele não tardaria
a encontrá-la.
Logo surgiu diante de
mim uma senhora, também de uns quarenta e poucos anos, como Dona Irene, mas sem
nenhuma maquiagem. O semblante abatido não escondeu os belos traços, apesar do
lenço que escondia seus cabelos e do avental que cobria seu corpo. Por um
instante fiquei olhando para ela, como a me perguntar se havia ali alguma
santidade. Ela não se preocupou com o meu olhar e continuou conversando com a
amiga através dos varais, dizendo que já estava diante de mim e informando que
seu filho não estava
Todos os móveis da casa
pareciam ter sido feitos pelo filho da Dona Maria, pois eram de um mesmo
padrão. Mesa, cadeiras, balcão, sofá, poltronas e mesa de centro eram talhados
num mesmo estilo, sofisticado demais para aquela casa tão humilde. O mesmo
ocorria com as molduras dos quadros de natureza morta espalhados pelas paredes.
Não fossem as dimensões reduzidas da sala, aquele ambiente poderia ser
encontrado em qualquer casa ou apartamento de bairros nobres. Talvez eu tenha
encontrado ali o marceneiro ideal para mobiliar o meu apartamento, quando o
comprar. Isso, claro, se o chefe reconhecer o meu talento e parar de me dar
matérias chinfrins para fazer.
Durante a entrevista
Dona Maria se mostrou surpresa com a minha presença ali, pois jamais imaginaria
que alguém pudesse se interessar por uma história inventada por uma gente pobre
e sem cultura. Sinceramente eu pensava da mesma forma, mas não podia dizer isso
a ela. Apenas anotei o comentário e continuei a conversa pedindo que me contasse
porque as pessoas estavam dizendo que seu filho era o Cristo.
- Olha moço, o povo tem
uma necessidade muito grande de acreditar
- Mas o que seu filho
tem a ver com isso? Ele fundou alguma igreja?
- Não, ele não fundou
nada. Ele só diz a essa gente que ninguém precisa de uma igreja para chegar a
Deus.
- E foi a senhora que
ensinou isso a ele?
- Foi não senhor. Eu rezo todos os dias e vou à missa nos
domingos. Faço parte da Legião de Maria. Na igreja já perguntaram isso, mas eu
não ensinei essas coisas a meu filho, não. Nunca disse a ele que o povo não
precisa de igreja. Ele pensou nisso sozinho e fala tão bem que consegue
convencer muita gente. Eu mesma acredito nele, mas vou à igreja porque tenho muito
respeito pelo padre e pelas outras pessoas que vão lá.
- Dona Maria, a senhora
não está ajudando muito. Eu preciso escrever algo extraordinário sobre a sua
história. A senhora não tem nada a me dizer?
- Olha, moço. Eu não
gosto dessa história de dizerem que o meu filho é Jesus. Todo mundo sabe como
terminou a história de Jesus. Eu não quero ver meu filho perseguido nem
crucificado. Nenhuma mãe quer isso para seu filho. Acho que é melhor o senhor
não escrever nada e deixar a gente em paz.
Mais uma vez eu
concordava com o que ela me dizia. Parecia até que lia meus pensamentos. Só o
que ela não sabia era que aquela história ridícula também agredia a minha
auto-estima profissional. Eu estava igualmente constrangido de estar ali
fazendo aquela reportagem e minha vontade era encerrar o assunto e voltar para
a redação dizendo que foi alarme falso. Mas conhecendo o chefe eu sabia que ele
iria ligar para Dona Irene para tomar satisfações e esta lhe diria para mandar
um repórter mais habilidoso, colocando defeitos no meu trabalho e me tornando
mais medíocre ainda aos olhos dele, se é que isso era possível. Então eu não
tinha outra saída senão anotar o depoimento da Dona Maria e levar a reportagem
adiante. Depois poderia fazer uma matéria sobre a ignorância popular.
- Eu não posso fazer
isso, Dona Maria, pois cumpro ordens. Se eu for embora agora, amanhã virá outro
para fazer as perguntas que eu não fizer. Prometo que vou escrever somente o
que eu ouvir. Se não existe nada de extraordinário na vida do seu filho é
exatamente isso que vou escrever.
- Desculpe, eu não quis
lhe ofender. Nem quero lhe fazer perder o seu emprego. É que essa história tem
me preocupado muito ultimamente. Meu filho é só que me restou depois que o José
se foi, e eu não o quero perder.
- Como foi que o seu
marido morreu?
- Foi há dez anos. Ele
estava trabalhando na construção de uma casa. Como carpinteiro devia fazer a
estrutura de madeira que suportaria o telhado. O dono da casa comprou material
muito ruim. A casa era alta, seu moço, e ficava num barranco. Meu José não teve
culpa, ele avisou pro dono que a madeira era fraca. Quando colocou as telhas
ficou pesado demais e ele caiu lá de cima, ele e o telhado todo, morro abaixo,
meu José e aquelas telhas, meu José e aquelas madeiras fracas. Ele avisou pro
dono que não ia agüentar, avisou sim, ele me disse antes que aquilo ia cair.
As lágrimas correndo
por aquele rosto bonito me engasgaram as palavras e mais uma vez eu me calei
diante dela, esperando que se acalmasse, esperando que eu me acalmasse. Depois
de algum tempo em silêncio consegui balbuciar uma pergunta.
- Como foi a sua vida
depois disso?
- Meu filho tinha treze
anos. Ele já trabalhava com o pai aqui em casa, na fabricação de móveis, de
portas e janelas. Quando chegamos em casa, depois do enterro do José, o Emanuel
me abraçou e disse que a gente ia dar um jeito de sobreviver. No mesmo instante
ele pegou as ferramentas do pai e começou a trabalhar. Nem parecia uma criança.
Eu escutava ele serrando e martelando o tempo todo. Não pedia ajuda nem para
carregar peças mais pesadas que ele. Seu moço, o menino entregou todas as
encomendas. Havia muitas coisas paradas porque o José deixou tudo esperando
enquanto ele construía o telhado daquela casa onde perdeu a vida. Desde aquele
dia não faltou comida na nossa mesa. Faz dez anos que o Emanuel é o homem desta
casa e eu não precisei casar de novo. Eu lavo roupa e trabalho como diarista,
mas é ele quem sustenta esta casa, porque sozinha eu não conseguiria me manter.
Pela primeira vez senti
que fizera uma pergunta certa na hora certa. Era o senso jornalístico fazendo
diferença no meu trabalho. O orgulho que
tinha de seu filho fez com que Dona Maria parasse de chorar. Falava com um
brilho nos olhos que parecia que ia explodir de tanta alegria. Na sua condição
de vida parecia uma vitória permanecer viúva. Não fosse a força de seu filho
ela teria se casado com qualquer um que se propusesse a mantê-la. Bonita
daquele jeito e com dez anos a menos, não faltaria pretendente.
- Dona Maria, eu quero
voltar um pouco mais no tempo. Seu filho nasceu em Belém, não é mesmo? Como foi
o seu casamento?
- Eu era só uma menina.
O José já era um homem feito. Nossas famílias moravam longe, mas nossos pais
eram amigos. Daí arranjaram nosso casamento. Eu o conheci poucos dias antes das
bodas. Eu morria de vergonha e ele também. Nosso namoro era na presença da
minha mãe, que falava mais que nós dois. Falava sempre em tom agressivo, como
se estivesse brigando com alguém. Ela dizia ao José que eu não sabia fazer nada,
que era muito mimada, que não estava pronta para casar. Que ele era homem feito
e que ela não ia permitir que me maltratasse. Que ela ia persegui-lo pelo resto
da vida se soubesse que não cuidava bem de mim ou se ele me deixasse. Parecia
que ela não queria que ele casasse comigo. Tive medo que desistisse. Mas ele
ficou ali, firme, até o dia do nosso casamento.
Meu pai matou um boi e convidou toda a vizinhança.
- E como foi o
nascimento do seu filho?
- Foram três dias de
festa depois do casamento. Só depois disso meu pai deixou o José me levar pra
casa. Acho que engravidei na primeira noite, porque Emanuel nasceu oito meses e
meio depois do casamento. Ainda não estava no tempo de nascer, mas era um bebezão grande, lindo. A parteira se surpreendeu com a facilidade
com que ele nasceu, nem parecia o primeiro filho, nem parecia que eu era tão
nova.
- E a senhora não teve
outros filhos?
- Não. Depois que o
Emanuel nasceu eu nunca mais engravidei. O doutor do postinho disse que eu e o
José tínhamos que fazer uns exames no hospital de clínicas, mas a gente nunca
teve tempo nem dinheiro para tomar o ônibus e ir lá. E depois, seu moço, na
condição que a gente vivia, não ter filhos sem precisar tomar remédio era até
uma bênção.
- E porque vocês saíram
de Belém?
- O José trabalhava na
lavoura, numa terra que ganhou do pai dele. Passamos uns anos ruins e ele não
conseguiu colheita suficiente para pagar o financiamento da semente. No
primeiro ano ele vendeu um trator e pagou. No segundo ano o trator fez muita
falta, ele teve que semear no arado puxado por boi. A colheita não deu e ele
teve que vender a criação pra não morrermos de fome. Daí não teve mais jeito,
tivemos que vender a terra e tentar a sorte em outro lugar. Com o dinheiro da
venda o José pagou as dívidas e com o que sobrou ele comprou as passagens, pois
sabia que aqui no sul os parentes que vieram estavam se dando bem. Seu moço,
aqui nós descobrimos o que era sofrer de verdade. Tudo que precisava tinha que
comprar e cadê o dinheiro? Lá no norte sempre havia uma horta, sempre dava pra
matar um frango, um leitão, dava pra pedir ajuda a um pai ou irmão, mas aqui
não tinha quem socorresse. O que o José conseguia ganhar ia pro aluguel e a
gente comia com o que sobrasse. Foi uma graça de Deus quando construíram esta Vila
Nazaré e nós paramos de pagar aluguel. O José já tinha perdido a esperança de
ser chamado pela Cohab. Com o dinheiro do aluguel ele pagava a prestação da
casa e ainda sobrava. Foi assim que ele construiu esta carpintaria e passou a
pegar encomendas. Depois de algum tempo ele deixou do emprego só pra se dedicar
às empreitadas e à carpintaria. O Emanuel cresceu dentro da carpintaria, por
isso não teve dificuldade em assumir quando o pai morreu. Mas porque ele tinha
que morrer? A gente estava indo tão bem...
As lágrimas
voltaram-lhe aos olhos. A sinceridade daquele depoimento me comovia. Eu não
sabia como ia traduzir a emoção daquela mulher tão sofrida no pequeno espaço
que tinha na revista. E ainda não havia falado com o filho. Era apenas a
segunda entrevista da reportagem que eu nem sabia se seria publicada. Até ali
não havia nada que justificasse a publicação. Uma vida normal, sofrida como a
de toda família que migra do norte para o sul. Alguma tragédia, mas nada digno
de uma reportagem. Por precaução resolvi anotar tudo. Meu papel era escrever e
fotografar. O chefe decidiria o que publicar.
- Quando foi que
começaram a chamar seu filho de Jesus?
- Desde que nós viemos
morar aqui na Vila Nazaré o povo já brincava com isso. José e Maria que vieram
de Belém, o filho só pode se chamar Jesus. E ainda com esse nome de Emanuel.
- Então tudo não passa
de uma brincadeira? De um apelido?
- Sim. No começo o
Emanuel se importava. Brigava com os meninos e acho que por isso o apelido
pegou. Hoje ele é conhecido aqui na Vila Nazaré por Jesus ou Emanuel, responde
como o chamam.
Parecia que a minha
entrevista estava encerrada. O assunto que me levou à Vila Nazaré estava
definitivamente esclarecido. Não valia a pena prosseguir na investigação. Dona
Maria havia me dado todas as informações de que necessitava para provar ao
chefe que o chamado era alarme falso. Dona Irene sentiu que eu não ia perguntar
mais nada e percebeu que ficaria desmoralizada se eu saísse dali naquele
momento. Pela primeira vez interferiu e disse:
- Maria, conte a ele
sobre o Alcides!
- Irene, isso foi uma
coincidência. Não vale a pena encher a cabeça do moço.
4.
- Quem é o Alcides? -
perguntei curioso, pois já havia entrevistado a Dona Irene e ela não havia
mencionou nenhum Alcides. Dona Maria me respondeu:
- Alcides é um homem
que mora aqui perto. Ele tinha um problema na vista e não enxergava desde que
sofreu um acidente. Os médicos diziam que ele não tinha problema nenhum e que
voltaria a ver a qualquer momento. Um dia ele estava contando essa história ao
Emanuel e o meu filho perguntou a ele porque então não voltava a enxergar
naquele momento. Tudo parecia ser um problema psicológico do Alcides. Então o
Emanuel só precisou mandar o pobre fechar os olhos e colocou os dedos sobre os
olhos dele. Emanuel disse para ele fixar o pensamento, disse que ele devia
acreditar que ia abrir os olhos e estaria curado. Quando o Alcides abriu os
olhos, seu moço, ele viu o meu filho sorrindo pra ele, e começou a gritar, a
beijar os pés do Emanuel, dizendo que Jesus o havia curado. Ele não fez nenhum
milagre, moço, ele só disse pro homem acreditar que podia, foi só isso.
- E o Alcides foi ao
médico depois disso?
- Claro. O doutor disse
a ele que era só uma questão de tempo, que já era esperado que ele voltasse a
ver. Mas o Alcides continua dizendo pra todo mundo que foi Jesus quem curou
ele. E esse povo acredita nisso, moço. O povo fica trazendo doente pro meu
Emanuel curar, como se ele fosse o Cristo ressuscitado.
- E o que o seu filho diz
disso?
- Ele diz que não pode
curar ninguém, que cada um pode curar a si próprio. Deus é pai dele como é pai
de cada um de nós. Ninguém precisa de intermediário para falar com seu pai.
- Seu filho estudou até
que série?
- Quando o pai morreu
ele estava na sétima série. Nunca mais ele voltou à escola. Não deu mais, não.
- E ele vai à igreja
com a senhora?
- Não vai não. Quando
ele era menino ia sempre comigo. Até coroinha ele foi. Mas depois que o José
morreu ele ficou muito revoltado. Ele dizia que tinha muito trabalho, mas eu
sabia que ele estava revoltado com Deus.
- Mas a forma como a
senhora disse que ele fala de Deus não me parece com alguém revoltado.
- Meu filho não guarda
mágoa, não, moço. Ele já fez as pazes com Deus faz tempo.
- E como foi isso?
- Um dia eu estava
dormindo e ele veio me acordar. Então ele disse que havia entendido porque Deus
havia tirado o pai dele. Era porque o José já cumpriu a missão dele neste
mundo. A vida do José já estava esgotada para Deus e era preciso que ele se
fosse. Só assim o Emanuel poderia cumprir a sua missão. Era o momento de ele me
sustentar, de descobrir que era capaz. Era a vez de ele ser carpinteiro, de ser
o homem da casa.
- E qual era essa
missão, Dona Maria?
- Ele não me disse não.
Mas depois disso ele voltou a sorrir. Ele tinha quinze anos e nunca mais eu vi
o meu filho triste.
- E ele voltou a
freqüentar a igreja?
- Não, nunca mais ele
voltou a freqüentar a igreja como fazia antes. Mas ele já leu a minha bíblia
várias vezes. Ele vive lendo. Sempre que eu preciso vou procurar no quarto
dele, pois sei que está lá. Ele entende da bíblia mais que eu, mais até que um
padre. Ele tenta falar comigo, mas eu não entendo. Eu disse a ele para ir falar
com o padre, mas ele não quer. Ele diz que os padres não podem responder as
perguntas dele.
Neste ponto tropeçamos
na minha própria ignorância. Eu mesmo não havia lido a bíblia nenhuma vez. O
pouco que sabia era como católico não praticante, daqueles que só aparecem na
igreja quando tem casamento ou batizado. Bíblia para mim só existia nos filmes
do cinema. Então eu não podia me aprofundar no assunto que Dona Maria havia
começado. Mas uma coisa era certa: eu não podia encerrar a reportagem sem antes
entrevistar o tal Emanuel e o ex-cego Alcides.
- Posso falar com o seu
filho? Ele está trabalhando agora?
- Ele não está
trabalhando hoje. Deve estar aí pela rua. Não é difícil encontrá-lo. Se quiser
pode voltar aqui mais tarde que ele volta para jantar. Não o convido para comer
conosco porque não temos nada especial.
Agradeci e saí.
Sinceramente eu não gostaria de estar naquele lugar depois do pôr-do-sol.
5.
Saí da casa da Dona
Maria sozinho, me despedindo dela e da Dona Irene, mais preocupado em ver se
meu carro ainda estava com as calotas do que encontrar o tal Jesus Emanuel.
Quando cheguei perto do carro e vi que ainda estava inteiro senti um alívio
muito grande. A prestação já me custava muito e eu não podia ter despesas
adicionais. Se isso ocorresse o carro ficaria na garagem e eu teria que andar
de ônibus até pagar o prejuízo. Felizmente nada havia acontecido. Os moleques
haviam parado de jogar futebol e estavam conversando perto do meu carro. Aquele
que brincou comigo quando cheguei voltou a provocar:
- Como está o joelho?
Eu nem lembrava mais do
incidente da minha chegada. O joelho já não doía. Mas a pergunta foi
conveniente, pois eu precisava achar o Jesus da Vila Nazaré e aqueles meninos
deviam conhecê-lo.
- Está bem, obrigado.
Você conhece o Emanuel, o carpinteiro, filho da Dona Maria?
- Eles conhecem. -
Respondeu apontando para os amigos, que me olhavam com ar de ironia.
- Vocês o conhecem?
Podem me dizer onde posso encontrá-lo?
Os meninos não paravam
de rir, como se eu fosse um palhaço. Quando eu já estava pronto para ir embora
um deles me falou:
- O Jesus está bem na
sua frente!
Fiquei ali olhando com
surpresa e curiosidade para aquele homem à minha frente, que me olhava com um
olhar alegre em meio às gargalhadas de seus amigos. Era quase da minha idade,
um pouco velho para estar jogando futebol na rua com aqueles moleques. Depois
de conhecer a sua história compreendi que ele tinha o direito de se divertir um
pouco. Imediatamente pensei no meu joelho. Como ele poderia saber do meu
problema? Como sabia que eu tinha esse defeito se não havia nada de
sobrenatural nele? Precisava lembrar de perguntar isso a ele. Mas eu sou um
repórter e tenho que pensar rápido. Tinha que agir rápido.
- Então você é o Jesus
da Vila Nazaré? O homem que faz milagres!
- É você quem está dizendo.
Meu nome é Emanuel.
- Me contaram que você
fez um cego voltar a enxergar. Isso não é um milagre?
- Você está muito
crédulo para quem chegou aqui tão contrariado. Que mudança é essa?
Como ele sabia da minha
contrariedade? Como poderia adivinhar? Será que a minha expressão ao chegar me
denunciou tanto assim? Mas e quanto ao meu joelho? Ele estava me intrigando
cada vez mais. Parece que a ironia com que conduzi a conversa inicialmente
estava se virando contra mim. Parece que meu interlocutor era bom na arte de
usar as palavras, de responder perguntas com outras perguntas. A roupa simples
disfarçava uma mente privilegiada. Eu devia medir muito bem as palavras para
falar com ele. Na faculdade aprendi que o repórter deve conquistar a confiança
do entrevistado, deve responder as suas perguntas com a mesma sinceridade que
espera que sejam respondidas as que vai fazer. É normal que o entrevistado o
questione. A entrevista nem havia começado e eu já estava em desvantagem.
- Estou aqui porque sou
repórter e gostaria muito de conhecer a sua história - respondi.
Acho que fui
convincente, porque Emanuel me estendeu a mão.
- É um prazer tê-lo
aqui, Paulo. Vou responder a todas as suas perguntas.
- Como você sabe o meu
nome se eu ainda não o disse?
- Seu nome não é Paulo?
Você tem cara de Paulo.
- É sim, mas como você
soube antes de eu falar?
- Eu olhei para você e
achei que se chamava Paulo. Não sei como isso aconteceu.
- Foi assim que soube
do meu problema no joelho também?
- Não, com o joelho foi
diferente. Eu vi o jeito como você desceu do carro. Mesmo com a pressa que
estava você desceu com a mão no joelho, como se estivesse segurando para não
tirar do lugar. Era um gesto típico de quem tem problema no joelho ou
ligamento.
Respostas rápidas e
convincentes. Só não explicavam como um pobre carpinteiro havia desenvolvido
tanta percepção.
- Você adivinha os
nomes das pessoas somente pelo seu jeito?
- Algumas vezes sim.
Parece que uma voz sopra o nome das pessoas no meu ouvido. Mas isso não
acontece sempre.
- E você atribui esse
"sopro" a alguma causa sobrenatural? A algum anjo?
- Não, isso é bobagem.
Qualquer um pode fazer isso. Basta um pouco de concentração, basta um pouco de
observação e atenção.
- Eu posso fazer isso?
- Você pode fazer o que
quiser. Você pode ser o que quiser. Pode ser um grande repórter, ter motorista,
fotógrafo. Basta um pouco de observação e atenção aos sinais que estão à sua
volta.
Aquele Jesus estava
ficando cada vez mais intrigante. Em cada frase revelava algo de mim, como se
conhecesse meus pensamentos, como se soubesse dos meus anseios e inquietações.
- Você promete muito
para quem tem tão pouco.
- Minha mãe não lhe
disse que nunca faltou comida em nossa mesa? De que mais eu preciso?
Mais uma vez ele me
desmontava e respondia uma pergunta com outras que eu não sabia responder. Mais
uma vez eu o desafiei e fiquei com cara de bobo. Entrei no carro e saí dali.
Ele me acenou como se dissesse: Até
amanhã, Paulo!
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