6.

O chefe entrou na redação com o mau-humor de sempre. Da porta já foi gritando com os repórteres principais para saber como andavam suas reportagens. Eles falavam todos ao mesmo tempo, enquanto caminhávamos para a sala de reuniões. Enquanto ouvia os relatos sobre as matérias principais eu pensava nas palavras de Emanuel, de que eu podia ser o que quisesse, bastava um pouco de observação, de atenção. O que eu estaria perdendo? Se eu participava da reunião como todos os repórteres, por que não conseguia o respeito do chefe? Por que me sentia tão pequeno diante daquela gente? Uma matéria de capa era o meu sonho. Um fotógrafo, motorista, assistente, informantes. Parece que as promessas do Cristo da periferia não eram tão fáceis de serem alcançadas, pois eu não conseguia ver de que modo um pouco de observação e atenção poderiam me ajudar. Ninguém naquele jornal era mais atento do que eu, ninguém. Envolto nesses pensamentos nem percebi que o chefe falava comigo enquanto todos esperavam minha resposta:

- Bom dia, senhor Paulo! Pela terceira vez, será que o senhor poderia nos dar a honra de falar como está a reportagem sobre o Cristo da periferia?

- Ah! Desculpe chefe, eu estava pensando nisso. Ontem eu entrevistei a informante e a mãe dele. Parece que é alarme falso. O homem não tem nada de Cristo. Nem à igreja ele vai.

- Ótimo! Então quero que você vá visitar uma mulher que diz ter uma pata que criou um cachorrinho. Pegue o endereço com a minha secretária.

- Chefe, se o senhor não se importar eu gostaria de voltar à Vila Nazaré hoje. Quero entrevistar o Cristo e um homem que voltou a enxergar.

- O homem fez um cego enxergar? E você diz que é alarme falso?  Geraldo, quero que vá lá e entreviste o Cristo e o cego. Paulo, você vai ver a pata que criou o cachorro. Passe as anotações do Cristo para o Geraldo!

Mais uma vez saí da reunião como um idiota. Perder a reportagem foi o cúmulo da incompetência. Eu estava distraído justamente quando o chefe perguntou sobre o meu trabalho. Eu queria dizer que precisava fazer mais investigações, mas disse logo que era um alarme falso. Precipitei-me e acabei escalado para mais uma reportagem medíocre. Passei as entrevistas da Dona Irene e da Dona Maria para o Geraldo e peguei o endereço da pata com a secretária do chefe. Não passei anotações da conversa que tive com Emanuel porque não fiz e não considerei aquilo uma entrevista, mas uma conversa pessoal. Pretendia fazer um roteiro das perguntas antes de ir até lá. Uma entrevista técnica evitaria que eu fosse surpreendido novamente com respostas em forma de perguntas. Agora eu não teria mais esse problema para entrevistar uma pata e um cachorro.

Fui à casa da pata que criou o cachorrinho e fiz a entrevista com a dona. Tirei umas fotos e voltei para a redação. Digitei a matéria, acrescentei as fotos da câmera digital e passei para o arquivo de matérias acabadas. Agora ficava à disposição do chefe para ocupar qualquer espaço que sobrasse na edição. Mais uma ótima reportagem sobre um assunto inútil. A vantagem de cobrir matérias assim é que você faz tudo em pouco tempo e ainda pode se dedicar a outras tarefas da redação.

Fiquei por ali olhando o trabalho dos assistentes. Os repórteres se apóiam muito neles para que suas reportagens tenham sucesso. São eles que checam as informações que são passadas por quem está na rua e também pelos informantes. Um repórter que tem um assistente pode descobrir uma pessoa ou um endereço sem precisar voltar à redação. Pode seguir uma pista com certeza, pois sabe que há alguém pensando com ele e mapeando todos os seus passos. Um dia ainda quero ser um repórter de primeira linha. Ter um assistente para ligar e mandar verificar todas as pistas que eu imaginar, obter todas as informações que precisar sem retornar à redação, entregar as anotações e recebê-las digitadas, prontas para edição.

- Alô! Câmbio! Terra chamando o astronauta Paulo!

Era o chefe gritando no meu ouvido. Pegou-me distraído de novo. A redação inteira estava olhando para mim com um sorriso de gozação.

- Ah Chefe, o senhor estava falando comigo? Desculpe, eu estava...

- Você já terminou de editar a matéria da pata que criou o cachorro?

- Sim senhor, eu...

- Então quero que vá até a Vila Nazaré e entreviste o Cristo e o cego. Agora!

- Mas, o Geraldo...

- O Geraldo está na delegacia. Roubaram o carro dele logo que chegou à vila e só agora ligou avisando. Você guardou cópia das anotações das entrevistas que fez com a Virgem e a informante?

- Sim, elas já estão digitadas. Fiz isso quando...

- Ótimo! O Geraldo perdeu o carro com todas as anotações. Vá logo e não seja assaltado. Carla, onde está o meu café? Afonso, como está o caso do seqüestro do banqueiro? Inácio, já falou com o pessoal de Brasília?  Patrícia, nosso correspondente de guerra fez contato? Cristina, as notícias esportivas saem até o fechamento da edição? Ou teremos que publicar uma nota dizendo: 'desculpem a nossa incompetência'?

O chefe estressado saiu gritando com todo mundo. Consegui minha reportagem de volta, mas tinha pouco tempo. Minha sensibilidade da véspera tinha fundamento. Assaltaram o Geraldo. Ainda bem que ele era um repórter dos bons e o seu carro devia estar segurado. Se fosse o meu, estaria perdido. Tive sorte de transcrever as entrevistas para o computador. Fiz isso no dia anterior, ao chegar em casa. Eu não consegui dormir, pois estava muito impressionado com a conversa que tive com Emanuel. Fiquei até a madrugada digitando e revisando as anotações. Talvez por isso estivesse tão distraído. Pra falar a verdade, eu digitei também os trechos que lembrava da conversa que tive com o "Messias" e ainda preparei algumas perguntas para a entrevista técnica. Não passei isso ao Geraldo, óbvio, porque ele devia me achar um idiota, como todo mundo na redação, e a conversa com o Emanuel me fez sentir assim. Eu gostaria de ver como o Geraldo se sairia com ele. Mais ainda, eu daria tudo para ver o chefe falando com ele, pois os dois pensam muito rápido. Seria legal ver o chefe perdendo o rebolado diante de um carpinteiro que só estudou até a sétima série.

- Preciso aprender essa técnica de responder perguntando, que o Emanuel domina com tanta facilidade. - Falei sozinho, como de costume. - Você ganha tempo para pensar se faz com que o interlocutor responda suas perguntas. Só não pode deixar que seu entrevistado fuja das perguntas questionando você. Se você é o repórter deve deixar bem claro que sua opinião não é importante naquela entrevista, pois sua missão é ouvir e não falar.

O escritório da revista ficava num prédio no centro da cidade. Era uma construção antiga, um velho casarão num terreno enorme. A área de estacionamento, à frente, era delimitada por canteiros nos quais havia árvores centenárias muito frondosas. Os carros ficavam sempre sob a sombra. Embora trabalhasse no centro da cidade meu carro sempre estava cheio de folhas. Pior era na primavera quando, além das flores, ainda caiam aquelas sementinhas que manchavam a pintura. Alem disso os passarinhos também faziam a festa e os carros levavam as lembranças desses passarinhos. Como eu não tinha dinheiro para pagar um lavacar com freqüência, minhas folgas eram dedicadas a lavar o carro. Como homem precavido, eu tinha alguns panos no porta-luvas para limpezas de emergência. Contudo, considerando a pressa que o chefe nos impingia, muitas vezes saí com o carro todo marcado com as fezes dos passarinhos. Uma vez um repórter tentou se queixar ao chefe, mas este foi logo avisando que não tinha tempo para pensar nessas bobagens e quem não estivesse satisfeito podia estacionar na rua ou num estacionamento pago. O carro do chefe era o único que cabia na garagem original da casa e, por isso, estava sempre limpinho. A garagem devia ser a única peça do casarão que não havia sido modificada. Paredes foram removidas, janelas trocadas, toda uma parafernália de tubulações foi colocada para adaptar a velha casa aos avanços do mundo moderno. Vários anexos foram construídos. O encanamento e a fiação elétrica foram substituídos. Do aspecto antigo a casa só tinha mesmo fachada, uma bela lareira que foi toda restaurada, e as grandes peças do andar superior, onde funcionava a administração, departamento de pessoal e contabilidade. No andar térreo, passada a recepção, com uma escadaria imponente que levava à administração, se podia encontrar a redação propriamente dita, contrastando com a paz aparente da primeira parte da casa. O chefe estacionava nos fundos, onde ficava a garagem. Sua chegada era prenúncio de turbulência e cobranças a todos os empregados.

    Cheguei ao meu carro e o encontrei todo coberto de folhas das flores que caíam naquela época do ano. Os passarinhos também haviam deixado lembranças. Mas como o chefe exigiu que eu me apressasse, pois o Geraldo havia perdido muito tempo, graças aos assaltantes, não tive tempo sequer de fazer a limpeza superficial que fazia quando tinha tempo, usando uma mangueira que os empregados se cotizaram para comprar e deixavam ali pra isso mesmo.

    Saí com o carro como estava. As folhas foram caindo pelo caminho. Acionei o limpador de pára-brisa, que fez aquela meleca com as fezes que um passarinho havia depositado bem no meu vidro. Para essas havia solução, o problema são aquelas que caem na lataria, pois mancham a pintura se secarem, desvalorizando o veículo.

    A Vila Nazaré ficava a trinta minutos da redação, fora da hora do 'rush', pois em horários de congestionamento poderia demorar mais de uma hora para chegar lá.

    Fui saindo do centro da cidade e o transito melhorando. Era preciso tomar cuidado para não exceder o limite de velocidade, pois a cidade estava invadida por radares, só para que a Prefeitura aumentasse a arrecadação. É uma incoerência essa necessidade de andar rápido com os bloqueios que nos são impostos. Um dia vou fazer uma reportagem sobre isso. Mas também não se pode colocar em risco as vidas alheias só porque se esta com pressa. Seria muito egoísmo meu pensar assim. As pessoas têm que se conscientizar de que não se deve andar rápido, mas sair a tempo.

    Entrei na Vila Nazaré. Embora já houvesse estado lá eu não conseguia deixar de me impressionar com o lugar. Por ser um bairro em formação não havia vegetação. As arvores fininhas, transplantadas, eram o único verde que se via nas ruas e praças. O asfalto era antipó, um asfalto de baixa qualidade, que não suporta tráfego pesado. Certamente os caminhoneiros não ligavam para isso, pois vi dois ou três caminhões estacionados em frente a certas casas - deviam ser moradores - e também furgões de entrega fazendo o seu trabalho.

O antipó apresentava, com isso, muitos buracos, o que me impedia de trafegar depressa no interior da Vila, mesmo porque havia pessoas que caminhavam na rua como se estivessem num parque. Nem ligavam para a presença do carro, que quase lhes tocava as pernas. Com a cara que me olhavam dava medo ate de buzinar. Era como se me lembrassem, com um simples olhar, que eu não devia estar ali.

    Olhei o relógio e vi que marcava três horas da tarde. Teria que ser rápido se quisesse concluir minha missão naquele dia. Do contrario teria que pedir mais tempo ao chefe e isso poderia me custar novamente a perda da matéria.


 

7.

Cheguei à casa da Dona Maria. Ela me informou que Emanuel não estava em casa. Havia sido contratado para uma obra, mas chegaria ao final do dia. Perguntei sobre o Alcides, que era cego, e ela me apontou a casa dele. Eu voltaria mais tarde. Aproveitaria o tempo para entrevistar o cego que voltou a enxergar.

O homem que me atendeu no portão parecia ser um aposentado. Cabelos grisalhos e sem corte, a barba por fazer, camisa de manga curta, calça social um ou dois números menor que o tamanho dele e chinelos de dedo, tipo havaianas. Com um jeito desconfiado perguntou o que eu queria com o Alcides. Depois que eu disse que sou repórter e estava ali para fazer uma entrevista com o homem que era cego e voltou a ver, ele admitiu que era o próprio Alcides. A velha técnica de responder com sinceridade as perguntas do entrevistado funcionou de novo. Abriu o portão e convidou-me a entrar. Era uma casa muito escura, com móveis que pareciam ter saído de um antiquário. A sala era muito pequena para os móveis, dava a impressão de que tudo estava empilhado ali, como num depósito. As persianas horizontais fechadas deixavam o ambiente em penumbra, meus olhos demoraram a se acostumar. Tudo revelava que ali morava alguém que não dependia da visão para se locomover.

- Então, Seu Alcides, o senhor tinha um problema na vista?

- Um problema não. Eu era cego e Jesus me devolveu a visão.

- O senhor nasceu cego?

- Eu enxergava e fiquei cego depois de um acidente. Foram quinze anos, três meses e vinte e cinco dias sem enxergar.

- E como o senhor voltou a enxergar?

- Foi Jesus quem me curou.

- Dá pra ser mais específico? Como foi que Jesus o curou?

- Ele mora aqui perto. Eu sempre imaginei que o filho da Dona Maria fosse um santo. Desde que o meu amigo José morreu ele sustentou a mãe como se fosse homem feito. Quando eu era novo eu trabalhava como pedreiro. O José sempre levava o moleque aonde ele ia. Às vezes a gente trabalhava na mesma obra e eu via que o menino era de bom coração.

- O senhor trabalhou na obra em que o Seu José morreu?

- Não, eu já era cego. Um dia eu caí de um andaime e bati a cabeça no chão. Eu bati assim de lado - disse apontando o dedo indicador para o lado direito da face - e a batida atingiu o nervo do olho. O médico não entendeu como eu fiquei cego. Foi o José que me acudiu quando eu caí. Era um amigo pra todas as horas. Eu nunca vi uma pessoa tão direita e tão disposta a ajudar. Não é porque ele morreu que eu estou dizendo isso. Pode perguntar pra todo mundo aqui na vila. Pelo menos os mais velhos, que o conheceram, ninguém tem um dedo de queixa do meu amigo José. - falou com ênfase e batendo a mão direita no peito a expressão 'meu amigo José', deixando claro que considerava muito importante ter o pai de Emanuel em seu rol de amigos distintos - Ele me levou pro hospital. Depois disso eu fiquei aposentado e quando sarei já estava velho demais para voltar a trabalhar. Daí o doutor me deixou aposentado mesmo.

- E como foi que Jesus o curou?

- Como eu te disse, eu desconfiava que o Jesus fosse santo. O nome dele é Emanuel, o mesmo nome que o anjo Gabriel mandou Maria e José darem ao Cristo. Além disso, ele nasceu numa cidade chamada Belém, igual ao Cristo. Ainda por cima mora numa vila chamada Nazaré e trabalha como carpinteiro, igualzinho ao Nosso Senhor. É claro que ele é Jesus.

- E como foi que Jesus o curou?

- Bem, eu sou evangélico. Então falei ao pastor que eu estava desconfiado de que o Senhor Jesus Cristo já havia voltado e que Ele vivia entre nós. O pastor disse que Jesus viveu trinta anos como pessoa comum antes de descobrir sua santidade. O Emanuel só tem vinte e três. Ele pode estar vivendo sua vida de homem comum, mas eu tenho certeza que Ele é o Senhor Jesus Cristo que voltou a este mundo para fazer a Justiça do Pai Criador.

- E como foi que Jesus o curou?

- Quando sofri o acidente e fiquei cego eu era casado e morava aqui com minha mulher e os cinco filhos. A mulher foi a primeira a me deixar. Seis meses ela agüentou, seis meses. Depois inventou uma viagem para a casa dos pais. Devia voltar em quinze dias. Nunca mais voltou. Os filhos foram indo atrás dela, um a um. No prazo de um ano eu estava sozinho. Ninguém gosta de conviver com um doente. Eles vêm me visitar de vez em quando, mas eu me acostumei à solidão. Não quero mais ninguém morando aqui. Outro dia uma filha minha se apartou do marido e veio morar aqui com meus três netos. Eu tenho oito netos, três dela, três do meu filho mais velho e dois do terceiro. Ela é a segunda. Os outros dois são solteiros e moram com a mãe deles. Ela não quis voltar pra casa da mãe porque não tem muito lugar lá e eu vivo sozinho aqui nesta casa em que criei cinco filhos. É apertado, mas coube todo mundo. Precisava ver como as crianças me incomodaram. Deus que me perdoe por falar assim dos meus netos, mas eles parecem uns capetas. Pulavam por toda parte, gritavam, estragavam as coisas, tiravam do lugar. Dei graças a Deus quando a mãe deles se entendeu com o marido e voltou para a casa dela. Minha filha vivia lavando roupas e os varais eram estendidos lá fora. Isso me incomodava muito, pois tinha que ficar desviando quando entrava e saía de casa. Foi bom porque ela lavava minhas roupas também, mas ela guardava tudo em lugar diferente e eu me atrapalhava na hora de procurar uma roupa pra vestir. Como eu era cego adquiri o costume de guardar minhas coisas sempre nos mesmos lugares. Se vou pegar uma coisa e ela não está lá, só depois é que me dou conta de que posso enxergar e procurar com os olhos. Aleluia Jesus!

- Seu Alcides, como foi que Jesus o curou? - perguntei, retomando o rumo da entrevista.

- Eu estava com aquela idéia fixa de que o Emanuel era o Senhor Jesus. Então eu ficava aqui em casa prestando atenção para ouvir a voz dele quando passasse. Ninguém sabe o que Ele fez na outra vida antes dos trinta anos, mas quando a mãe pediu, Ele transformou água em vinho. Então pensei: Vou falar com Ele e se Ele não me ouvir vou falar com a mãe Dele. Em dois mil anos deve ter adquirido muito mais poder. Quando ficar famoso nem vai lembrar deste pobre cego. Então um dia eu ouvi a voz Dele passando lá no meu portão e gritei: "Emanuel, tem piedade de mim!" Ele ouviu o meu chamado e perguntou o que podia fazer por mim. Eu disse a Ele que queria voltar a enxergar.

- Foi então que ele fez o milagre?

- Foi! Ele disse que eu podia fazer o que eu quisesse, podia enxergar se quisesse. Eu disse que desejava muito voltar a enxergar, mas nada do que eu fazia dava resultado. Então Ele mandou que eu fechasse os olhos e colocou as mãos sobre os meus olhos, desse jeito, eu senti os dedos Dele nos meus olhos como se fosse um ferro em brasa, queimando o meu cérebro. Mas não doía, era uma sensação de bem-estar, como se Ele estivesse tirando tudo de ruim que existia na minha cabeça. Havia muitas pessoas ao redor, mas eu só ouvia a voz Dele. Ele dizia que eu só precisava de um pouco de atenção e concentração, que quando eu abrisse os olhos eu voltaria a enxergar. Era só me concentrar, era só acreditar, era só tirar da cabeça qualquer dúvida de que isso era possível. Rapaz, eu acreditei porque tinha certeza de que Ele era o Senhor Jesus que estava ali, com as mãos nos meus olhos. Eu não tinha nenhuma dúvida de que iria abrir os olhos e ver a imagem do Salvador bem na minha frente. Eu queria isso, era tudo o que eu queria. Quando Ele mandou abrir os olhos eu abri. Foi a visão mais emocionante que alguém pode ter na vida, abrir os olhos e ver o Cristo Jesus ali olhando pra gente. Foi isso que me aconteceu. Eu fui abençoado pelo primeiro milagre do Senhor Jesus Cristo, dois mil anos depois do primeiro nascimento. Eu sou um abençoado pelos céus.

- O médico não lhe disse que poderia voltar a enxergar a qualquer momento? Não seria só uma coincidência?

- Blasfêmia! Como você se atreve a duvidar do poder do Filho de Deus?

- Eu não estou duvidando, Seu Alcides. É que a Dona Maria me disse que o seu caso foi apenas uma coincidência.

- A Dona Maria não quer aceitar a verdade. Ela tem medo que o filho seja morto pelos poderosos. Ela tem medo dos desígnios do Senhor. Mas o que é a vontade da Dona Maria diante do Altíssimo?

- Eu falei rapidamente com o Emanuel ontem. Ele não me pareceu levar muito a sério essa santidade. Quando cheguei aqui ele jogava bola com os adolescentes lá na praça.

- Ele ainda não tem consciência da Sua divindade. Isso só vai acontecer daqui a sete anos. É normal que Ele brinque com as crianças. "Vinde a mim os pequeninos!" Lembra? Você tem que ser como uma criança para entrar no Reino dos Céus.

- Ele fez mais algum milagre depois disso?

- Não. Eu sou um abençoado dos Céus. Muitas pessoas o procuraram depois pedindo um milagre, mas ainda não chegou a hora Dele. Ele diz que cada um pode fazer seus próprios milagres. Mas ninguém tem tanta fé quanto eu. Somente eu tive fé suficiente para ver o Senhor Jesus. Mesmo cego eu enxerguei o Cristo Jesus, Glória a Deus!

- E o seu pastor acredita que aconteceu um milagre?

- Ele acredita. Ele diz que devemos respeitar a vontade do Senhor, que devemos esperar sete anos para conhecer a Sua glória. Agora é tempo de oração. De oração e arrependimento. Uma vida santa é o que o Cristo espera de cada um de nós. Ele vive como homem porque no dia da Sua Glória Ele irá julgar todos nós. Ele vai jogar os pecadores no fogo do inferno e levar os justos para o Reino de Deus, que será aqui na Terra mesmo. Só os bons vão conhecer o Paraíso. E não adiantar fugir nem mentir porque Ele está à espreita. O Senhor vive entre nós! Pecadores, preparai-vos para a ira do Senhor!

Agradeci a entrevista do Seu Alcides, me despedi e saí. Era um caso típico de fanatismo e auto-sugestão. Se eu fizesse mais uma pergunta cética corria o risco de ser agredido. Incrível como certas entrevistas a gente faz com uma pergunta só. Eu perguntei como Jesus o curou e ele me contou toda a sua história de vida, toda a sua tragédia e o milagre que atribui ao Emanuel. Acho que um milagre daqueles até eu faria se o sujeito pensasse que eu era Jesus. Nunca vi tanto fanatismo. O sol já estava se pondo e eu precisava voltar à casa da Dona Maria.


 

8.

Antes disso passei num mercadinho e comprei algumas frutas, uma cesta básica e um frango assado. Eu não queria correr o risco de interromper a entrevista por causa da simplicidade da casa. Também não queria constranger os donos da casa por não ter nada a oferecer.

Quando cheguei de volta, Dona Maria ficou muito emocionada com os presentes que levei.

- Agora eu o convido para jantar, Seu Paulo. Já não tínhamos mais nada para comer hoje. Comemos o pouco que tínhamos no almoço. Foi Deus que lhe mandou. Ele sempre manda o que a gente precisa na hora certa. Meu filho já está para chegar. O senhor fique à vontade.

Enquanto conversávamos chegou a Dona Irene e ofereceu a sua garagem para guardar o meu carro. Contou-me que um carro foi roubado ali pela manhã.

- Os ladrões estavam passando quando o rapaz parou o carro. Nem imaginou que eles queriam roubar. Foi perguntar alguma coisa e eles puseram um revólver na cara dele. O coitado teve que entregar a chave do carro, o relógio, os documentos e todo o dinheiro que tinha no bolso. Depois eles fugiram dando tiros pra cima. O rapaz saiu correndo para o outro lado e nem deu tempo da gente acudir. Eu estava olhando pela janela, mas não pude fazer nada. Eles vendem os carros roubados para comprar drogas. A gente não pode denunciar senão eles tocam fogo na casa da gente, estupram e matam. É a lei do silêncio que reina aqui na Vila Nazaré.

- E a polícia não faz nada?

- De vez em quando passa um carro da polícia por aqui. Quando prendem alguém eles levam pra delegacia, dão uma surra, tomam todo o dinheiro que o pobre tem no bolso e depois soltam. Quando é um traficante eles nem prendem. O traficante vai logo entregando um dinheiro pra eles. Os policiais ganham tão pouco que vendem a própria dignidade para poderem ganhar um pouco mais. Acabam se tornando cúmplices dos crimes que deviam reprimir.

- Dona Irene, a senhora parece ter um padrão de vida melhor que o das outras pessoas daqui. Por que a senhora e seu marido não se mudam?

- Precisa não, moço, a gente já está acostumada. Aqui nós fizemos a nossa vida e esses meninos nós vimos nascer. Eles respeitam a casa da gente e a gente respeita eles. Não tem perigo pra nós, não. Nossos filhos foram criados nesta vila, nós estamos acostumados com a escola, a igreja, o mercado, os vizinhos. Não vale a pena mudar daqui. O que a gente tem é muito aqui e pouco em outro lugar. Aqui é o nosso lugar. Pode guardar seu carro na garagem lá de casa que estará seguro. Meu marido só chega tarde da noite e a minha casa todo mundo respeita. A da Maria também, mas aqui não tem garagem.

Fiquei agradecido com a oferta da Dona Irene. Com o carro em segurança eu poderia entrevistar Emanuel com muito mais tranqüilidade. O coitado do Geraldo não teve a mesma sorte. Não teve tempo nem de conhecer aquelas pessoas tão boas. Independentemente da santidade eu estava aprendendo a admirar aquelas senhoras, aprendendo o valor que tem uma vida simples. A narrativa de Dona Irene foi muito elucidativa em relação à vida de pessoas honestas no meio de ladrões e traficantes. Eu precisava lembrar de escrever aquelas palavras. Isso podia ser muito útil quando eu fosse fazer uma reportagem sobre o tráfico e o submundo do crime organizado. Mas isso é matéria para capa de revista e eu só vou fazer uma reportagem assim no dia em que o chefe parar de me ver como o idiota de plantão, o palhaço distraído da redação. Para isso eu preciso prestar mais atenção quando ele estiver por perto. Só hoje ele me pegou distraído duas vezes. Atenção e concentração. Essas palavras estavam virando receita de sucesso para mim.


 

9.

Emanuel chegou em casa e beijou a mãe. Olhou para a mesa enquanto a mãe me apontava e contava a doação que eu havia feito. Ele me estendeu a mão com aquele sorriso aberto.

- Bem vindo, Paulo! Eu não te disse que na minha mesa nunca falta comida? Estávamos esperando por você hoje.

Sorri e apertei a sua mão, sem saber o que responder. Ele me convidou para sentar e esperar enquanto tomava um banho. Sentei e continuei assistindo a novela numa televisão antiga que tinha um sinal muito ruim, cheio de sombras. Nem lembrava mais como era a imagem antes da TV a cabo. Dona Maria estava na cozinha, ultimando os preparativos do jantar. Como era possível viver daquele jeito? Como alguém podia ver a despensa vazia e saber que haveria comida na próxima refeição? Que fé é essa que te dá a certeza de que um estranho vai chegar trazendo comida meia hora antes do jantar? Será que eles imaginavam que eu perdi a matéria e só estava ali porque roubaram o carro do Geraldo? Essa capacidade de viver do improvável era algo que eu não tinha. Lembro muito bem de quando saí da casa de meus pais e fui morar sozinho. Eu era estudante e tinha um bom emprego num banco. Quando me formei e resolvi ser jornalista eu pedi demissão do banco, precipitado como sempre. O emprego de jornalista não veio tão fácil quanto eu pensava e o dinheiro começou a diminuir. Bateu-me um desespero tão grande que eu já estava aceitando qualquer emprego, até de bancário. Se demorasse mais uma semana eu já estava devolvendo o apartamento e voltando para a casa de meus pais. Por isso nem negociei quando apareceu a oportunidade de trabalhar como repórter principiante na revista. Mesmo quando descobri que o chefe é um estressado e que a redação é uma panela de pressão eu me resignei e me submeti aos gritos e à humilhação por medo do que o desemprego me levaria a fazer. Não que meus pais não me aceitassem de volta na casa deles. Moram numa casa grande, na qual criaram cinco filhos. Sou o mais novo e único solteiro. Eles relutaram muito quando eu disse que precisava de um espaço e queria morar sozinho, mas finalmente aceitaram minha decisão, embora não tenham concordado com ela. Talvez meu pai até me emprestasse dinheiro se eu pedisse. Mas eu queria que ele e minha mãe sentissem orgulho de mim. Não gostaria de precisar da ajuda deles novamente. Hoje entendo que isso era imaturidade e insegurança em relação à desaprovação deles com minha saída de casa, mas naquele momento era importante para mim provar a eles que a minha decisão era acertada e resistir até o último momento antes de dar o braço a torcer. Essa necessidade íntima da aprovação deles me fez mais forte, mais resistente e teimoso. Como pais maravilhosos que são, não demonstraram ressentimento com a minha decisão precipitada. Ao contrário, falavam com tanto carinho de mim para os parentes e amigos, me tratavam tão bem quando ia lá visitá-los, que eu não pediria qualquer coisa a eles se não fosse a última alternativa. Por isso aceitava o tratamento que o chefe me dá. Por isso aceitava ser o bobo da redação.

- Terra chamando o astronauta Paulo! O jantar está servido.

Despertei do transe de meus pensamentos. A voz de Emanuel em meu ouvido usando as palavras de meu chefe naquela tarde me assustou. Como ele fazia aquilo? Como podia saber o que se passava na minha cabeça?

- Desculpe, eu estava distraído. Posso usar seu banheiro?

- Pode, sim, Paulo. Pode parar de se desculpar tanto também! É a terceira vez hoje. Você não tem culpa de nada.

Mais uma vez sorri sem saber o que dizer. Enquanto lavava as mãos pensei que era a primeira vez que eu me desculpava com ele por estar distraído. Considerando as duas vezes com o chefe era a terceira naquele dia. Como ele sabia disso?

Dona Maria preparou um jantar com arroz, feijão e batatas fritas, fez um suco com as laranjas e, com o frango assado, o jantar estava completo. Emanuel sentou-se à mesa como se aquela fosse uma refeição normal para eles. Aquele homem estava se transformando num grande mistério para mim. Certamente a entrevista com ele iria tirar muitas das minhas dúvidas.

Jantamos quase num silêncio absoluto, interrompido apenas por pedidos de "passe o frango", "passe as batatas", ou com a Dona Maria perguntando se estava bom o tempero. Estranhei que ele começou a comer sem fazer uma oração. Não que eu fizesse orações antes das refeições, mas eu imaginava que um pretenso filho de Deus fosse fazer uma oração antes de comer, principalmente num dia em que não havia nada para comer e a refeição chegou na última hora. Percebi que já o estava chamando de filho de Deus. Bem, todos nós somos filhos de Deus. Era melhor deixar ele em paz e jantar quieto.


 

10.

Depois do jantar Dona Maria recolheu os pratos e foi para a cozinha lavar a louça. Sentamos no sofá para a entrevista. Comecei falando do Geraldo:

- Quase que eu não venho hoje. O chefe da redação escalou outro repórter para fazer esta entrevista. Só me mandou na última hora porque o outro teve um problema.

- Eu sabia que você viria. Este encontro estava marcado e você não iria faltar.

- Você não entendeu. Sou um empregado e vou onde me mandam.

- Você é que não entende. Tínhamos uma entrevista marcada e todos os obstáculos seriam removidos para ela acontecer.

- Mas nós não marcamos esta entrevista. Ontem eu fui embora sem dizer que voltaria hoje.

- Quando você disse que queria fazer uma reportagem eu falei que responderia a todas as suas perguntas, não falei? E você foi embora com muitas perguntas sem resposta. É claro que voltaria hoje.

- Mas o meu chefe mandou outra pessoa fazer a entrevista.

- Eu não prometi entrevista a seu chefe nem a outro repórter. Eles tentaram mudar o que estava certo. Foram contra o que não podia ser mudado. Quebraram a cara.

- Você sabe o que aconteceu? Sabe o que eles pensam de mim? Como sabe?

- Você e eu sabemos que você não é o que eles pensam. É só uma questão de tempo para perceberem. Eu não sei especificamente o que aconteceu, mas sei o que devia acontecer. Se alguém foi contra isso perdeu tempo e deve ter se aborrecido um bocado. Esses são os sinais de que lhe falei ontem. Se você presta atenção e se concentra consegue vê-los. Se não os vê corre o risco de ir contra eles e quebra a cara.

Ele estava dominando meu pensamento de novo. Ainda bem que não estava respondendo com perguntas. Era hora de partir para a entrevista técnica. Saquei meu caderno de anotações e comecei com as questões previamente preparadas. Ele sorriu, como se soubesse exatamente o que eu estava pensando.

- As pessoas dizem que você é a reencarnação de Jesus Cristo. O que você tem a dizer sobre isso?

- As pessoas têm uma necessidade muito grande de se encontrar com Deus. Qualquer possibilidade que vejam de atribuir divindade a algo ou alguém é usada pelos carentes de Deus com todo o fervor. Isso não é ruim, pois mostra uma aproximação das pessoas com Deus.

A resposta era evasiva. Dava margem a diversas outras perguntas. Tive vontade de abandonar meu roteiro e bombardeá-lo de questionamentos sobre aquela resposta. Mas eu já conhecia a sua habilidade no improviso. Sabia que ia quebrar a cara se fugisse do roteiro. Será que esse era um dos sinais de que ele falou?  Será que eu estava prestando atenção agora? Pelo sim, pelo não, continuei o meu roteiro.

- Você demonstra uma sabedoria maior que o normal para a sua escolaridade. Pode explicar isso?

- Sabedoria não é questão de escolaridade. As pessoas estudam para aprender as coisas dos homens. A sabedoria vem da percepção da interação do homem com o mundo. Não há escola que ensine isso. Você vai para a escola e aprende como os homens esperam que você aja, mas ninguém ensina como o mundo quer que você aja.

- Mas o mundo não é dominado pelos homens? - perguntei instintivamente, fugindo do roteiro, sentindo que ele esperava por esta pergunta.

- Os homens pensam que dominam o mundo. Por isso cometem tantos erros. Ao pensar assim eles esquecem de perceber os sinais que o mundo lhes dá. Esquecem de se concentrar e observar os sinais antes de agir. Às vezes é mais importante observar que agir. Se você vai a favor da vontade do mundo não se desgasta. Aqueles que lutam contra o mundo perdem o seu tempo e o seu esforço. Ficam doentes e não fazem nada útil.

Mais uma resposta que abria margem para um leque infindável de outras perguntas. Resisti bravamente.

- Você fez aquele homem cego voltar a enxergar?

- Ele voltou a enxergar sozinho. Não sei como aquele homem conseguiu ficar cego por mais de quinze anos. É um caso gritante de alguém que não presta atenção aos sinais do mundo. Todos os sinais diziam que ele devia ver. Os médicos diziam que ele não tinha nada. A mulher foi embora e os filhos foram atrás dela, um a um. Todas essas perdas eram sinais de que ele devia voltar a ver. Mas ele insistia em continuar cego, numa demonstração de que havia rompido com o mundo.

- Mas era evangélico e pedia a Deus todos os dias para voltar a enxergar. - Fugi do roteiro de novo, mas aproveitei a informação que obtive na entrevista da tarde, depois de traçar o roteiro da entrevista técnica.

- Ele queria que Deus fizesse por ele o que deveria fazer sozinho. Acostumou-se a ser vítima e não fez nada para virar o jogo. As preces foram atendidas há muito tempo e ele não teve coragem de virar a página, de dar um passo à frente.

- E o que você fez por ele? - Eu queria fazer uma pergunta bem mais picante, mas me contive.

- Eu me compadeci dele. Eu sabia que todos os sinais o mandavam voltar a enxergar. Mesmo assim me parou na rua e implorou piedade. Como eu poderia não ter piedade se o Alcides praticamente exigia que todas as pessoas se apiedassem dele? Então resolvi mostrar-lhe o caminho que para todos era óbvio. Acho que fui cruel com ele, pois tirei a sua maior arma de compaixão universal. Mandei que fechasse os olhos e acreditasse no óbvio, que acreditasse que não era cego. O médico já havia dito isso, o mundo todo gritava e ele não ouvia. Precisava ouvir do próprio filho de Deus para acreditar.

- E você é mesmo o filho de Deus?

- Nós todos não somos?

Bem feito pra mim. Disparei uma pergunta-surpresa e recebi outra. Eu devia saber que ele responderia desta forma. Voltei ao roteiro sem tentar responder ou continuar o assunto.

- Então você não admite que foi um milagre? Qualquer pessoa pode fazer isso? Por que ninguém fez antes?

- A vida é um milagre, Paulo. Você faz milagres todos os dias. Basta olhar em volta e perceber que você tem que trabalhar, que lutar, que sobreviver. Você come carne, frutas, verduras e legumes. Você usa agrotóxico, inseticida, baraticida, raticida. Você caça e pesca. Você tranca numa jaula animais maiores que você e que fariam um belo banquete se estivessem soltos. Veja quantas vidas são sacrificadas para que você continue vivo. Isso é um milagre que qualquer um faz todos os dias. Mas as pessoas só entendem como milagre aquilo que acham extraordinário, inexplicável. Não sabem que o mundo faz o milagre da vida. Ele opera todos os dias o milagre de escolher quem vive e quem morre. Parece simples, mas como um pai escolhe um filho para morrer e outro para viver? Se todos somos filhos do mundo e ele escolhe que vamos viver, somos realmente privilegiados. Então se o mundo resolveu que vamos sobreviver, temos que aprender a entender os sinais. Ele paga um preço muito alto para estarmos aqui, não podemos querer dominá-lo. Temos que nos concentrar, temos que prestar muita atenção. Temos que perceber todos os sinais.

Engoli a vontade de metralhá-lo de perguntas sobre esses sinais.

- Porque a técnica utilizada com o cego não funcionou com os outros doentes que lhe procuraram depois?

- Eu não curei o cego. Ele já estava curado. A diferença entre ele e as outras pessoas é que ele não tinha doença alguma. Se fosse rico teria procurado um psicólogo e não teria ficado tanto tempo cego. As outras pessoas têm realmente um problema físico. Isso não significa que não possam ser curadas. Para saber isso elas precisam se concentrar, prestar atenção aos sinais do mundo. Só assim saberão se o mundo quer que permaneçam doentes. Elas têm que se libertar da pena que sentem de si mesmas. Talvez assim consigam fazer o que entendem por milagre.

As perguntas do meu roteiro haviam acabado. Minha cabeça estava articulando uma centena de outras perguntas quando ouvi o som de uma buzina. Era o marido da Dona Irene chegando e reclamando sua garagem. A entrevista estava encerrada. Emanuel sorriu e disse:

- Este é um sinal. Você tem que ir embora se quiser continuar tendo carro.

Sorri e me despedi. Dona Maria já havia se recolhido. Fui embora com mais perguntas do que respostas. Mas com uma nova perspectiva de vida.

 

Capítulo anterior                                    Próximo capítulo

 

Ler meu Livro de Visitas

Assinar meu Livro de Visitas