6.
O chefe entrou na
redação com o mau-humor de sempre. Da porta já foi gritando com os repórteres
principais para saber como andavam suas reportagens. Eles falavam todos ao
mesmo tempo, enquanto caminhávamos para a sala de reuniões. Enquanto ouvia os
relatos sobre as matérias principais eu pensava nas palavras de Emanuel, de que
eu podia ser o que quisesse, bastava um pouco de observação, de atenção. O que
eu estaria perdendo? Se eu participava da reunião como todos os repórteres, por
que não conseguia o respeito do chefe? Por que me sentia tão pequeno diante
daquela gente? Uma matéria de capa era o meu sonho. Um fotógrafo, motorista,
assistente, informantes. Parece que as promessas do Cristo da periferia não
eram tão fáceis de serem alcançadas, pois eu não conseguia ver de que modo um
pouco de observação e atenção poderiam me ajudar. Ninguém naquele jornal era
mais atento do que eu, ninguém. Envolto nesses pensamentos nem percebi que o
chefe falava comigo enquanto todos esperavam minha resposta:
- Bom dia, senhor
Paulo! Pela terceira vez, será que o senhor poderia nos dar a honra de falar
como está a reportagem sobre o Cristo da periferia?
- Ah! Desculpe chefe,
eu estava pensando nisso. Ontem eu entrevistei a informante e a mãe dele.
Parece que é alarme falso. O homem não tem nada de Cristo. Nem à igreja ele
vai.
- Ótimo! Então quero
que você vá visitar uma mulher que diz ter uma pata que criou um cachorrinho.
Pegue o endereço com a minha secretária.
- Chefe, se o senhor
não se importar eu gostaria de voltar à Vila Nazaré hoje. Quero entrevistar o
Cristo e um homem que voltou a enxergar.
- O homem fez um cego
enxergar? E você diz que é alarme falso?
Geraldo, quero que vá lá e entreviste o Cristo
e o cego. Paulo, você vai ver a pata que criou o cachorro. Passe as anotações
do Cristo para o Geraldo!
Mais uma vez saí da
reunião como um idiota. Perder a reportagem foi o cúmulo da incompetência. Eu
estava distraído justamente quando o chefe perguntou sobre o meu trabalho. Eu
queria dizer que precisava fazer mais investigações, mas disse logo que era um
alarme falso. Precipitei-me e acabei escalado para mais uma reportagem
medíocre. Passei as entrevistas da Dona Irene e da Dona Maria para o Geraldo e
peguei o endereço da pata com a secretária do chefe. Não passei anotações da
conversa que tive com Emanuel porque não fiz e não considerei aquilo uma
entrevista, mas uma conversa pessoal. Pretendia fazer um roteiro das perguntas
antes de ir até lá. Uma entrevista técnica evitaria que eu fosse surpreendido
novamente com respostas em forma de perguntas. Agora eu não teria mais esse
problema para entrevistar uma pata e um cachorro.
Fui à casa da pata que
criou o cachorrinho e fiz a entrevista com a dona. Tirei umas fotos e voltei
para a redação. Digitei a matéria, acrescentei as fotos da câmera digital e
passei para o arquivo de matérias acabadas. Agora ficava à disposição do chefe
para ocupar qualquer espaço que sobrasse na edição. Mais uma ótima reportagem
sobre um assunto inútil. A vantagem de cobrir matérias assim é que você faz
tudo em pouco tempo e ainda pode se dedicar a outras tarefas da redação.
Fiquei por ali olhando
o trabalho dos assistentes. Os repórteres se apóiam muito neles para que suas
reportagens tenham sucesso. São eles que checam as informações que são passadas
por quem está na rua e também pelos informantes. Um repórter que tem um
assistente pode descobrir uma pessoa ou um endereço sem precisar voltar à
redação. Pode seguir uma pista com certeza, pois sabe que há alguém pensando
com ele e mapeando todos os seus passos. Um dia ainda quero ser um repórter de
primeira linha. Ter um assistente para ligar e mandar verificar todas as pistas
que eu imaginar, obter todas as informações que
precisar sem retornar à redação, entregar as anotações e recebê-las digitadas,
prontas para edição.
- Alô! Câmbio! Terra
chamando o astronauta Paulo!
Era o chefe gritando no
meu ouvido. Pegou-me distraído de novo. A redação inteira estava olhando para
mim com um sorriso de gozação.
- Ah Chefe, o senhor
estava falando comigo? Desculpe, eu estava...
- Você já terminou de
editar a matéria da pata que criou o cachorro?
- Sim senhor, eu...
- Então quero que vá
até a Vila Nazaré e entreviste o Cristo e o cego. Agora!
- Mas, o Geraldo...
- O Ger
- Sim, elas já estão
digitadas. Fiz isso quando...
- Ótimo! O Ger
O chefe estressado saiu
gritando com todo mundo. Consegui minha reportagem de volta, mas tinha pouco
tempo. Minha sensibilidade da véspera tinha fundamento. Assaltaram o Ger
- Preciso aprender essa
técnica de responder perguntando, que o Emanuel domina com tanta facilidade. -
Falei sozinho, como de costume. - Você ganha tempo para pensar se faz com que o
interlocutor responda suas perguntas. Só não pode deixar que seu entrevistado
fuja das perguntas questionando você. Se você é o repórter deve deixar bem
claro que sua opinião não é importante naquela entrevista, pois sua missão é
ouvir e não falar.
O escritório da revista
ficava num prédio no centro da cidade. Era uma construção antiga, um velho
casarão num terreno enorme. A área de estacionamento, à frente, era delimitada
por canteiros nos quais havia árvores centenárias muito frondosas. Os carros
ficavam sempre sob a sombra. Embora trabalhasse no centro da cidade meu carro
sempre estava cheio de folhas. Pior era na primavera quando, além das flores,
ainda caiam aquelas sementinhas que manchavam a pintura. Alem disso os
passarinhos também faziam a festa e os carros levavam
as lembranças desses passarinhos. Como eu não tinha dinheiro para pagar um lavacar com freqüência, minhas folgas eram dedicadas a
lavar o carro. Como homem precavido, eu tinha alguns panos no porta-luvas para
limpezas de emergência. Contudo, considerando a pressa que o chefe nos
impingia, muitas vezes saí com o carro todo marcado com as fezes dos
passarinhos. Uma vez um repórter tentou se queixar ao chefe, mas este foi logo
avisando que não tinha tempo para pensar nessas bobagens e quem não estivesse
satisfeito podia estacionar na rua ou num estacionamento pago. O carro do chefe
era o único que cabia na garagem original da casa e, por isso, estava sempre
limpinho. A garagem devia ser a única peça do casarão que não havia sido
modificada. Paredes foram removidas, janelas trocadas, toda uma parafernália de
tubulações foi colocada para adaptar a velha casa aos avanços do mundo moderno.
Vários anexos foram construídos. O encanamento e a fiação elétrica foram
substituídos. Do aspecto antigo a casa só tinha mesmo fachada, uma bela lareira
que foi toda restaurada, e as grandes peças do andar superior, onde funcionava
a administração, departamento de pessoal e contabilidade. No andar térreo, passada
a recepção, com uma escadaria imponente que levava à
administração, se podia encontrar a redação propriamente dita, contrastando com
a paz aparente da primeira parte da casa. O chefe estacionava nos fundos, onde
ficava a garagem. Sua chegada era prenúncio de turbulência e cobranças a todos
os empregados.
Cheguei ao meu carro e o encontrei todo coberto de folhas das
flores que caíam naquela época do ano. Os passarinhos também haviam deixado
lembranças. Mas como o chefe exigiu que eu me apressasse, pois o Geraldo havia
perdido muito tempo, graças aos assaltantes, não tive tempo sequer de fazer a
limpeza superficial que fazia quando tinha tempo, usando uma mangueira que os
empregados se cotizaram para comprar e deixavam ali pra isso mesmo.
Saí com o carro como estava. As folhas foram caindo pelo caminho.
Acionei o limpador de pára-brisa, que fez aquela meleca com as fezes que um
passarinho havia depositado bem no meu vidro. Para essas havia solução, o
problema são aquelas que caem na lataria, pois mancham a pintura se secarem,
desvalorizando o veículo.
A Vila Nazaré ficava a trinta minutos da redação, fora da hora do
'rush', pois em horários de congestionamento poderia demorar mais de uma hora
para chegar lá.
Fui saindo do centro da cidade e o transito melhorando. Era
preciso tomar cuidado para não exceder o limite de velocidade, pois a cidade
estava invadida por radares, só para que a Prefeitura aumentasse a arrecadação.
É uma incoerência essa necessidade de andar rápido com os bloqueios que nos são
impostos. Um dia vou fazer uma reportagem sobre isso. Mas também não se pode colocar em risco as vidas alheias só porque se esta com
pressa. Seria muito egoísmo meu pensar assim. As pessoas têm que se
conscientizar de que não se deve andar rápido, mas sair a tempo.
Entrei na Vila Nazaré. Embora já houvesse estado lá eu não
conseguia deixar de me impressionar com o lugar. Por ser um bairro em formação
não havia vegetação. As arvores fininhas, transplantadas, eram o único verde
que se via nas ruas e praças. O asfalto era antipó,
um asfalto de baixa qualidade, que não suporta tráfego pesado. Certamente os
caminhoneiros não ligavam para isso, pois vi dois ou três caminhões
estacionados em frente a certas casas - deviam ser moradores - e também furgões
de entrega fazendo o seu trabalho.
O antipó
apresentava, com isso, muitos buracos, o que me impedia de trafegar depressa no
interior da Vila, mesmo porque havia pessoas que caminhavam na rua como se
estivessem num parque. Nem ligavam para a presença do carro, que quase lhes
tocava as pernas. Com a cara que me olhavam dava medo ate de buzinar. Era como
se me lembrassem, com um simples olhar, que eu não devia estar ali.
Olhei o relógio e vi que marcava três horas da tarde. Teria que
ser rápido se quisesse concluir minha missão naquele dia. Do contrario teria
que pedir mais tempo ao chefe e isso poderia me custar novamente a perda da matéria.
7.
Cheguei à casa da Dona
Maria. Ela me informou que Emanuel não estava
O homem que me atendeu
no portão parecia ser um aposentado. Cabelos grisalhos e sem corte, a barba por
fazer, camisa de manga curta, calça social um ou dois números menor que o
tamanho dele e chinelos de dedo, tipo havaianas. Com um jeito desconfiado
perguntou o que eu queria com o Alcides. Depois que eu disse que sou repórter e
estava ali para fazer uma entrevista com o homem que era cego e voltou a ver,
ele admitiu que era o próprio Alcides. A velha técnica
de responder com sinceridade as perguntas do entrevistado funcionou de novo.
Abriu o portão e convidou-me a entrar. Era uma casa muito escura, com móveis
que pareciam ter saído de um antiquário. A sala era muito pequena para os
móveis, dava a impressão de que tudo estava empilhado ali, como num depósito.
As persianas horizontais fechadas deixavam o ambiente em penumbra, meus olhos
demoraram a se acostumar. Tudo revelava que ali morava alguém que não dependia
da visão para se locomover.
- Então, Seu Alcides, o
senhor tinha um problema na vista?
- Um problema não. Eu
era cego e Jesus me devolveu a visão.
- O senhor nasceu cego?
- Eu enxergava e fiquei
cego depois de um acidente. Foram quinze anos, três meses e vinte e cinco dias
sem enxergar.
- E como o senhor
voltou a enxergar?
- Foi Jesus quem me
curou.
- Dá pra ser mais
específico? Como foi que Jesus o curou?
- Ele mora aqui perto.
Eu sempre imaginei que o filho da Dona Maria fosse um santo. Desde que o meu
amigo José morreu ele sustentou a mãe como se fosse
homem feito. Quando eu era novo eu trabalhava como pedreiro. O José sempre
levava o moleque aonde ele ia. Às vezes a gente trabalhava na mesma obra e eu
via que o menino era de bom coração.
- O senhor trabalhou na
obra em que o Seu José morreu?
- Não, eu já era cego.
Um dia eu caí de um andaime e bati a cabeça no chão. Eu bati assim de lado -
disse apontando o dedo indicador para o lado direito da face - e a batida
atingiu o nervo do olho. O médico não entendeu como eu fiquei cego. Foi o José
que me acudiu quando eu caí. Era um amigo pra todas as horas. Eu nunca vi uma
pessoa tão direita e tão disposta a ajudar. Não é porque ele morreu que eu
estou dizendo isso. Pode perguntar pra todo mundo aqui na vila. Pelo menos os
mais velhos, que o conheceram, ninguém tem um dedo de queixa do meu amigo José.
- falou com ênfase e batendo a mão direita no peito a expressão 'meu amigo
José', deixando claro que considerava muito importante ter o pai de Emanuel em
seu rol de amigos distintos - Ele me levou pro hospital. Depois disso eu fiquei
aposentado e quando sarei já estava velho demais para voltar a trabalhar. Daí o
doutor me deixou aposentado mesmo.
- E como foi que Jesus
o curou?
- Como eu te disse, eu
desconfiava que o Jesus fosse santo. O nome dele é Emanuel, o mesmo nome que o
anjo Gabriel mandou Maria e José darem ao Cristo. Além disso, ele nasceu numa
cidade chamada Belém, igual ao Cristo. Ainda por cima mora numa vila chamada
Nazaré e trabalha como carpinteiro, igualzinho ao Nosso Senhor. É claro que ele
é Jesus.
- E como foi que Jesus
o curou?
- Bem, eu sou
evangélico. Então falei ao pastor que eu estava desconfiado de que o Senhor
Jesus Cristo já havia voltado e que Ele vivia entre nós. O pastor disse que Jesus
viveu trinta anos como pessoa comum antes de descobrir
sua santidade. O Emanuel só tem vinte e três. Ele pode estar vivendo sua vida
de homem comum, mas eu tenho certeza que Ele é o Senhor Jesus Cristo que voltou
a este mundo para fazer a Justiça do Pai Criador.
- E como foi que Jesus
o curou?
- Quando sofri o
acidente e fiquei cego eu era casado e morava aqui com minha mulher e os cinco
filhos. A mulher foi a primeira a me deixar. Seis meses ela agüentou, seis
meses. Depois inventou uma viagem para a casa dos pais. Devia voltar
- Seu Alcides, como foi
que Jesus o curou? - perguntei, retomando o rumo da entrevista.
- Eu estava com aquela
idéia fixa de que o Emanuel era o Senhor Jesus. Então eu ficava aqui em casa
prestando atenção para ouvir a voz dele quando passasse. Ninguém sabe o que Ele
fez na outra vida antes dos trinta anos, mas quando a mãe pediu, Ele
transformou água
- Foi então que ele fez
o milagre?
- Foi! Ele disse que eu
podia fazer o que eu quisesse, podia enxergar se quisesse. Eu disse que
desejava muito voltar a enxergar, mas nada do que eu fazia dava resultado.
Então Ele mandou que eu fechasse os olhos e colocou as mãos sobre os meus
olhos, desse jeito, eu senti os dedos Dele nos meus olhos como se fosse um
ferro em brasa, queimando o meu cérebro. Mas não doía, era uma sensação de
bem-estar, como se Ele estivesse tirando tudo de ruim que existia na minha
cabeça. Havia muitas pessoas ao redor, mas eu só ouvia a voz Dele. Ele dizia
que eu só precisava de um pouco de atenção e concentração, que quando eu
abrisse os olhos eu voltaria a enxergar. Era só me concentrar, era só
acreditar, era só tirar da cabeça qualquer dúvida de que isso era possível.
Rapaz, eu acreditei porque tinha certeza de que Ele era o Senhor Jesus que
estava ali, com as mãos nos meus olhos. Eu não tinha nenhuma dúvida de que iria
abrir os olhos e ver a imagem do Salvador bem na minha frente. Eu queria isso,
era tudo o que eu queria. Quando Ele mandou abrir os olhos eu abri. Foi a visão mais emocionante que alguém pode ter na vida, abrir
os olhos e ver o Cristo Jesus ali olhando pra gente. Foi isso que me aconteceu.
Eu fui abençoado pelo primeiro milagre do Senhor Jesus Cristo, dois mil anos
depois do primeiro nascimento. Eu sou um abençoado pelos céus.
- O médico não lhe
disse que poderia voltar a enxergar a qualquer momento? Não seria só uma
coincidência?
- Blasfêmia! Como você
se atreve a duvidar do poder do Filho de Deus?
- Eu não estou
duvidando, Seu Alcides. É que a Dona Maria me disse que o seu caso foi apenas
uma coincidência.
- A Dona Maria não quer
aceitar a verdade. Ela tem medo que o filho seja morto pelos poderosos. Ela tem
medo dos desígnios do Senhor. Mas o que é a vontade da Dona Maria diante do
Altíssimo?
- Eu falei rapidamente
com o Emanuel ontem. Ele não me pareceu levar muito a sério
essa santidade. Quando cheguei aqui ele jogava bola com os adolescentes lá na
praça.
- Ele ainda não tem
consciência da Sua divindade. Isso só vai acontecer daqui a sete anos. É normal
que Ele brinque com as crianças. "Vinde a mim os pequeninos!" Lembra?
Você tem que ser como uma criança para entrar no Reino dos Céus.
- Ele fez mais algum milagre
depois disso?
- Não. Eu sou um
abençoado dos Céus. Muitas pessoas o procuraram depois pedindo um milagre, mas
ainda não chegou a hora Dele. Ele diz que cada um pode
fazer seus próprios milagres. Mas ninguém tem tanta fé quanto eu. Somente eu
tive fé suficiente para ver o Senhor Jesus. Mesmo cego eu enxerguei o Cristo
Jesus, Glória a Deus!
- E o seu pastor
acredita que aconteceu um milagre?
- Ele acredita. Ele diz
que devemos respeitar a vontade do Senhor, que devemos esperar sete anos para
conhecer a Sua glória. Agora é tempo de oração. De oração e arrependimento. Uma
vida santa é o que o Cristo espera de cada um de nós. Ele vive como homem
porque no dia da Sua Glória Ele irá julgar todos nós. Ele vai jogar os
pecadores no fogo do inferno e levar os justos para o Reino de Deus, que será
aqui na Terra mesmo. Só os bons vão conhecer o Paraíso. E não adiantar fugir
nem mentir porque Ele está à espreita. O Senhor vive entre nós! Pecadores, preparai-vos para a ira do Senhor!
Agradeci a entrevista
do Seu Alcides, me despedi e saí. Era um caso típico de fanatismo e
auto-sugestão. Se eu fizesse mais uma pergunta cética corria o risco de ser
agredido. Incrível como certas entrevistas a gente faz com uma pergunta só. Eu
perguntei como Jesus o curou e ele me contou toda a sua história de vida, toda
a sua tragédia e o milagre que atribui ao Emanuel. Acho que um milagre daqueles
até eu faria se o sujeito pensasse que eu era Jesus. Nunca vi tanto fanatismo.
O sol já estava se pondo e eu precisava voltar à casa da Dona Maria.
8.
Antes disso passei num
mercadinho e comprei algumas frutas, uma cesta básica e um frango assado. Eu
não queria correr o risco de interromper a entrevista por causa da simplicidade
da casa. Também não queria constranger os donos da casa por não ter nada a
oferecer.
Quando cheguei de
volta, Dona Maria ficou muito emocionada com os presentes que levei.
- Agora eu o convido
para jantar, Seu Paulo. Já não tínhamos mais nada para comer hoje. Comemos o
pouco que tínhamos no almoço. Foi Deus que lhe mandou. Ele sempre manda o que a
gente precisa na hora certa. Meu filho já está para chegar. O senhor fique à
vontade.
Enquanto conversávamos
chegou a Dona Irene e ofereceu a sua garagem para guardar o meu carro.
Contou-me que um carro foi roubado ali pela manhã.
- Os ladrões estavam
passando quando o rapaz parou o carro. Nem imaginou que eles queriam roubar.
Foi perguntar alguma coisa e eles puseram um revólver na cara dele. O coitado
teve que entregar a chave do carro, o relógio, os documentos e todo o dinheiro
que tinha no bolso. Depois eles fugiram dando tiros pra cima. O rapaz saiu
correndo para o outro lado e nem deu tempo da gente acudir. Eu estava olhando
pela janela, mas não pude fazer nada. Eles vendem os carros roubados para
comprar drogas. A gente não pode denunciar senão eles tocam fogo na casa da
gente, estupram e matam. É a lei do silêncio que reina aqui na Vila Nazaré.
- E a polícia não faz
nada?
- De vez em quando
passa um carro da polícia por aqui. Quando prendem alguém eles levam pra
delegacia, dão uma surra, tomam todo o dinheiro que o pobre tem no bolso e
depois soltam. Quando é um traficante eles nem prendem. O traficante vai logo
entregando um dinheiro pra eles. Os policiais ganham tão pouco
que vendem a própria dignidade para poderem ganhar um pouco mais. Acabam se
tornando cúmplices dos crimes que deviam reprimir.
- Dona Irene, a senhora
parece ter um padrão de vida melhor que o das outras pessoas daqui. Por que a
senhora e seu marido não se mudam?
- Precisa não, moço, a
gente já está acostumada. Aqui nós fizemos a nossa vida e esses meninos nós
vimos nascer. Eles respeitam a casa da gente e a gente respeita
eles. Não tem perigo pra nós, não. Nossos filhos foram criados nesta
vila, nós estamos acostumados com a escola, a igreja, o mercado, os vizinhos.
Não vale a pena mudar daqui. O que a gente tem é muito aqui e pouco em outro
lugar. Aqui é o nosso lugar. Pode guardar seu carro na garagem lá de casa que
estará seguro. Meu marido só chega tarde da noite e a minha casa todo mundo
respeita. A da Maria também, mas aqui não tem garagem.
Fiquei agradecido com a
oferta da Dona Irene. Com o carro em segurança eu poderia entrevistar Emanuel
com muito mais tranqüilidade. O coitado do Ger
9.
Emanuel chegou em casa e beijou a mãe. Olhou para a mesa enquanto a mãe me
apontava e contava a doação que eu havia feito. Ele me
estendeu a mão com aquele sorriso aberto.
- Bem vindo, Paulo! Eu
não te disse que na minha mesa nunca falta comida? Estávamos esperando por você
hoje.
Sorri e apertei a sua
mão, sem saber o que responder. Ele me convidou para sentar e esperar enquanto
tomava um banho. Sentei e continuei assistindo a novela numa televisão antiga
que tinha um sinal muito ruim, cheio de sombras. Nem lembrava mais como era a
imagem antes da TV a cabo. Dona Maria estava na cozinha, ultimando os
preparativos do jantar. Como era possível viver daquele jeito? Como alguém
podia ver a despensa vazia e saber que haveria comida na próxima refeição? Que
fé é essa que te dá a certeza de que um estranho vai chegar trazendo comida
meia hora antes do jantar? Será que eles imaginavam que eu perdi a matéria e só
estava ali porque roubaram o carro do Ger
- Terra chamando o
astronauta Paulo! O jantar está servido.
Despertei do transe de
meus pensamentos. A voz de Emanuel em meu ouvido usando as palavras de meu
chefe naquela tarde me assustou. Como ele fazia aquilo? Como podia saber o que
se passava na minha cabeça?
- Desculpe, eu estava
distraído. Posso usar seu banheiro?
- Pode, sim, Paulo.
Pode parar de se desculpar tanto também! É a terceira vez hoje. Você não tem
culpa de nada.
Mais uma vez sorri sem
saber o que dizer. Enquanto lavava as mãos pensei que era a primeira vez que eu
me desculpava com ele por estar distraído. Considerando as duas vezes com o
chefe era a terceira naquele dia. Como ele sabia disso?
Dona Maria preparou um
jantar com arroz, feijão e batatas fritas, fez um suco
com as laranjas e, com o frango assado, o jantar estava completo. Emanuel
sentou-se à mesa como se aquela fosse uma refeição normal para eles. Aquele
homem estava se transformando num grande mistério para mim. Certamente a
entrevista com ele iria tirar muitas das minhas
dúvidas.
Jantamos quase num
silêncio absoluto, interrompido apenas por pedidos de "passe o
frango", "passe as batatas", ou com a Dona Maria perguntando se
estava bom o tempero. Estranhei que ele começou a comer sem fazer uma oração.
Não que eu fizesse orações antes das refeições, mas eu imaginava que um
pretenso filho de Deus fosse fazer uma oração antes de comer, principalmente
num dia em que não havia nada para comer e a refeição chegou na
última hora. Percebi que já o estava chamando de filho de Deus. Bem, todos nós
somos filhos de Deus. Era melhor deixar ele em paz e jantar quieto.
10.
Depois do jantar Dona
Maria recolheu os pratos e foi para a cozinha lavar a louça. Sentamos no sofá
para a entrevista. Comecei falando do Geraldo:
- Quase que eu não
venho hoje. O chefe da redação escalou outro repórter para fazer esta
entrevista. Só me mandou na última hora porque o outro teve um problema.
- Eu sabia que você
viria. Este encontro estava marcado e você não iria faltar.
- Você não entendeu.
Sou um empregado e vou onde me mandam.
- Você é que não
entende. Tínhamos uma entrevista marcada e todos os obstáculos seriam removidos
para ela acontecer.
- Mas nós não marcamos
esta entrevista. Ontem eu fui embora sem dizer que voltaria hoje.
- Quando você disse que
queria fazer uma reportagem eu falei que responderia a todas as suas perguntas,
não falei? E você foi embora com muitas perguntas sem resposta. É claro que
voltaria hoje.
- Mas o meu chefe
mandou outra pessoa fazer a entrevista.
- Eu não prometi
entrevista a seu chefe nem a outro repórter. Eles tentaram mudar o que estava
certo. Foram contra o que não podia ser mudado. Quebraram a cara.
- Você sabe o que
aconteceu? Sabe o que eles pensam de mim? Como sabe?
- Você e eu sabemos que
você não é o que eles pensam. É só uma questão de tempo para perceberem. Eu não
sei especificamente o que aconteceu, mas sei o que devia acontecer. Se alguém
foi contra isso perdeu tempo e deve ter se aborrecido um bocado. Esses são os
sinais de que lhe falei ontem. Se você presta atenção e se concentra consegue
vê-los. Se não os vê corre o risco de ir contra eles e quebra a cara.
Ele estava dominando
meu pensamento de novo. Ainda bem que não estava respondendo com perguntas. Era
hora de partir para a entrevista técnica. Saquei meu caderno de anotações e
comecei com as questões previamente preparadas. Ele sorriu, como se soubesse
exatamente o que eu estava pensando.
- As pessoas dizem que
você é a reencarnação de Jesus Cristo. O que você tem a dizer sobre isso?
- As pessoas têm uma
necessidade muito grande de se encontrar com Deus. Qualquer possibilidade que
vejam de atribuir divindade a algo ou alguém é usada pelos carentes de Deus com
todo o fervor. Isso não é ruim, pois mostra uma aproximação das pessoas com
Deus.
A resposta era evasiva.
Dava margem a diversas outras perguntas. Tive vontade de abandonar meu roteiro
e bombardeá-lo de questionamentos sobre aquela resposta. Mas eu já conhecia a
sua habilidade no improviso. Sabia que ia quebrar a cara se fugisse do roteiro.
Será que esse era um dos sinais de que ele falou? Será que eu estava prestando atenção agora?
Pelo sim, pelo não, continuei o meu roteiro.
- Você demonstra uma
sabedoria maior que o normal para a sua escolaridade. Pode explicar isso?
- Sabedoria não é
questão de escolaridade. As pessoas estudam para aprender as coisas dos homens.
A sabedoria vem da percepção da interação do homem com o mundo. Não há escola
que ensine isso. Você vai para a escola e aprende como os homens esperam que
você aja, mas ninguém ensina como o mundo quer que você aja.
- Mas o mundo não é
dominado pelos homens? - perguntei instintivamente, fugindo do roteiro,
sentindo que ele esperava por esta pergunta.
- Os homens pensam que
dominam o mundo. Por isso cometem tantos erros. Ao pensar assim eles esquecem
de perceber os sinais que o mundo lhes dá. Esquecem de se concentrar e observar
os sinais antes de agir. Às vezes é mais importante observar que agir. Se você
vai a favor da vontade do mundo não se desgasta. Aqueles que lutam contra o
mundo perdem o seu tempo e o seu esforço. Ficam doentes e não fazem nada útil.
Mais uma resposta que
abria margem para um leque infindável de outras perguntas. Resisti bravamente.
- Você fez aquele homem
cego voltar a enxergar?
- Ele voltou a enxergar
sozinho. Não sei como aquele homem conseguiu ficar cego por mais de quinze
anos. É um caso gritante de alguém que não presta atenção aos sinais do mundo.
Todos os sinais diziam que ele devia ver. Os médicos diziam que ele não tinha
nada. A mulher foi embora e os filhos foram atrás dela, um a um. Todas essas
perdas eram sinais de que ele devia voltar a ver. Mas ele insistia em continuar
cego, numa demonstração de que havia rompido com o mundo.
- Mas era evangélico e
pedia a Deus todos os dias para voltar a enxergar. - Fugi do roteiro de novo,
mas aproveitei a informação que obtive na entrevista da tarde, depois de traçar
o roteiro da entrevista técnica.
- Ele queria que Deus
fizesse por ele o que deveria fazer sozinho. Acostumou-se a ser vítima e não
fez nada para virar o jogo. As preces foram atendidas há muito tempo e ele não
teve coragem de virar a página, de dar um passo à frente.
- E o que você fez por
ele? - Eu queria fazer uma pergunta bem mais picante, mas me contive.
- Eu me compadeci dele.
Eu sabia que todos os sinais o mandavam voltar a enxergar. Mesmo assim me parou
na rua e implorou piedade. Como eu poderia não ter piedade se o Alcides
praticamente exigia que todas as pessoas se apiedassem dele? Então resolvi
mostrar-lhe o caminho que para todos era óbvio. Acho que fui cruel com ele,
pois tirei a sua maior arma de compaixão universal. Mandei que fechasse os
olhos e acreditasse no óbvio, que acreditasse que não era cego. O médico já
havia dito isso, o mundo todo gritava e ele não ouvia. Precisava ouvir do
próprio filho de Deus para acreditar.
- E você é mesmo o
filho de Deus?
- Nós todos não somos?
Bem feito pra mim.
Disparei uma pergunta-surpresa e recebi outra. Eu devia saber que ele
responderia desta forma. Voltei ao roteiro sem tentar responder ou continuar o
assunto.
- Então você não admite
que foi um milagre? Qualquer pessoa pode fazer isso?
Por que ninguém fez antes?
- A vida é um milagre,
Paulo. Você faz milagres todos os dias. Basta olhar em volta e perceber que
você tem que trabalhar, que lutar, que sobreviver. Você come carne, frutas,
verduras e legumes. Você usa agrotóxico, inseticida, baraticida,
raticida. Você caça e pesca. Você tranca numa jaula animais maiores que você e
que fariam um belo banquete se estivessem soltos. Veja quantas vidas são
sacrificadas para que você continue vivo. Isso é um milagre que qualquer um faz
todos os dias. Mas as pessoas só entendem como milagre aquilo que acham
extraordinário, inexplicável. Não sabem que o mundo faz o milagre da vida. Ele
opera todos os dias o milagre de escolher quem vive e quem morre. Parece
simples, mas como um pai escolhe um filho para morrer e outro para viver? Se
todos somos filhos do mundo e ele escolhe que vamos viver, somos realmente
privilegiados. Então se o mundo resolveu que vamos sobreviver, temos que
aprender a entender os sinais. Ele paga um preço muito alto para estarmos aqui,
não podemos querer dominá-lo. Temos que nos concentrar, temos que prestar muita
atenção. Temos que perceber todos os sinais.
Engoli a vontade de
metralhá-lo de perguntas sobre esses sinais.
- Porque a técnica
utilizada com o cego não funcionou com os outros doentes que lhe procuraram
depois?
- Eu não curei o cego.
Ele já estava curado. A diferença entre ele e as outras pessoas é que ele não
tinha doença alguma. Se fosse rico teria procurado um psicólogo e não teria
ficado tanto tempo cego. As outras pessoas têm realmente um problema físico. Isso
não significa que não possam ser curadas. Para saber isso elas precisam se
concentrar, prestar atenção aos sinais do mundo. Só assim saberão se o mundo
quer que permaneçam doentes. Elas têm que se libertar da pena que sentem de si
mesmas. Talvez assim consigam fazer o que entendem por milagre.
As perguntas do meu
roteiro haviam acabado. Minha cabeça estava articulando uma centena de outras
perguntas quando ouvi o som de uma buzina. Era o marido da Dona Irene chegando
e reclamando sua garagem. A entrevista estava encerrada. Emanuel sorriu e
disse:
- Este é um sinal. Você
tem que ir embora se quiser continuar tendo carro.
Sorri e me despedi.
Dona Maria já havia se recolhido. Fui embora com mais perguntas do que
respostas. Mas com uma nova perspectiva de vida.