O VALOR INTERIOR
Todas as pessoas
gostam de valorizar o lugar onde moram ou trabalham, ou até as associações a
que pertencem. Clubes de futebol são a expressão
máxima. Basta um grupo de cinco pessoas da mesma empresa se encontrarem
num final de expediente para estar formado o "time da casa". Logo vem
o convite ao patrão para que patrocine a compra de uniformes e o time está apto
a desafiar todos os quadros das empresas vizinhas. Se o grupo for maior faz-se
um time de futebol suíço, futebol de campo, etc. Se o grupo é feminino o time é
de voleibol, basquete, etc. E a união não se restringe às empresas. Ao
contrário, todo e qualquer lugar que se preze deve ter sua agremiação. Os trabalhadores
cansados encontram novas forças para jogar a "pelada" nos finais de
semana, como fosse seu ópio, a descarregar as tensões e frustrações,
proporcionando-lhes momentos de descontração e liberdade. Quando o bairro é muito
grande formam-se os times regionais: "Unidos de Rua Tal" e
"Garotos da Praça Tal", ou ainda "Cruzeirinho", "Vasquinho", "Expressinho", etc, e logo surge um organizador para o grande campeonato
do bairro, de onde surgirá uma seleção com os melhores jogadores, que irá
disputar o "citadino", provavelmente revelando craques para os clubes profissionais.
Mas os valores que
unem as pessoas nas competições esportivas não são usados quando o assunto é
profissional. No fim, o produto importado sempre é melhor que o interno. A
galinha do vizinho sempre é mais gorda que a nossa. A polenta dos outros tem
menos caroços que a nossa. A solução com "prata da casa" sempre é
desprezada e procura-se resolver tudo com valores "importados". Se a
necessidade é em uma empresa, busca-se no mercado. Se em um bairro, busca-se no
centro da cidade. Se em uma cidade,
Na verdade o problema
é maior, em sentido amplo, que o singelo exemplo do time de futebol. Quando um
pai diz a seu filho:- Você não é tão bom quanto o filho do vizinho, e nunca o
será. - está destruindo toda e qualquer iniciativa do menino para superar seu
"adversário". O que era um obstáculo a superar passa a ser uma
barreira intransponível.
Quando você diz a si
próprio:- Eu nunca serei melhor porque nasci, moro ou trabalho aqui (ou acolá),
- está se colocando em posição de inferioridade, desprezando seu potencial e
indo a nocaute antes do início da luta. Se James "Buster"
Douglas pensasse assim, jamais subiria ao ringue para derrubar Mike Tyson. Foi
preciso uma sobrecarga emocional - a morte de sua esposa - para que aprendesse
que nada neste mundo é eterno, nenhum obstáculo é intransponível. E foi assim
que derrubou o mito: superando suas próprias limitações. Ninguém nasce sabendo
e as deficiências devem ser combatidas com muita dedicação, começando pelo
diagnóstico correto das falhas, seguido de um trabalho eficaz para eliminá-las
ou, ao menos, reduzi-las. Não se pode mudar para melhor sem saber o que está
ruim. Não se pode melhorar sem saber a quem se comparar. Não se pode desanimar
antes de começar.
Quando você diz a
todos que as pessoas próximas a você são piores que as distantes, está
desvalorizando a si próprio. Se você contrata um gerente para comandar uma
equipe, na qual se destaca um elemento que poderia ser promovido, pode ter
certeza de que haverá conflito
Assim acontece com nosso país.
Outro dia li um artigo de um respeitado jornalista, que abordava a forma como
nossos políticos e economistas são transmudados de intelectuais em idiotas, e
vice-versa, no simples ato de entrar ou sair do governo. Ministros odiados,
quando depostos, são convidados a ocupar altos cargos em empresas de renome, e
a proferir palestras por todo o território nacional, e até no exterior. ex-presidentes da República são consultados sobre os
problemas da Nação. Problemas que não foram capazes de resolver, quando ativos,
talvez por falta de credibilidade, mas que hoje são as pessoas mais
recomendadas para aconselhar o novo governo.
Minha gente (desculpem
o plágio), se não acreditarmos que podemos superar a crise, se duvidarmos de
nossa capacidade para resolver os problemas da população, estaremos
condenando-nos ao fracasso. Estaremos entregando a vitória "de
bandeja" ao nosso adversário. E nosso adversário, neste caso, é o
subdesenvolvimento, o desemprego, a fome, a miséria. Quem é capaz de ver seu
filho passando fome e ficar de braços cruzados? Mas você é capaz de ajustar os
custos de sua empresa e demitir dezenas ou centenas de pessoas num piscar de
olhos. Você é capaz de disputar queda de braço com o governo e aumentar seus
preços sem necessidade. Você é capaz de queimar sua produção para ganhar preço.
Você é capaz de vender sem nota fiscal para não pagar
impostos. É claro que o governo é ganancioso, que os recursos não são
aplicados com prudência e se prestam, muitas vezes, a sustentar
funcionários-fantasmas e aposentadorias fraudulentas. É claro que o
ascensorista do Congresso Nacional ganha mais que o seu gerente. Mas não é
assim que você vai mudar as coisas. Outro dia um governador, ao negar o pedido
de um grupo de empresários, que pretendia financiamento do governo estadual
para a instalação de indústria em seu estado, foi surpreendido com a afirmativa
de que deveria retribuir os investimentos feitos pelas empresas postulantes em
sua campanha eleitoral. A resposta foi pronta:- Vocês não investiram só na minha campanha. Onde estão os números do investimento
nas campanhas de meus adversários? - Estava certo o governador. As empresas
investem nas campanhas eleitorais de vários candidatos, de preferência os
favoritos nas pesquisas. Não podem perder. E o preço é bem alto. Se eleito, o
candidato deve facilitar a vida de seus empreendedores, de modo que recuperem o
capital investido, com muito lucro. Se no Poder
Executivo as coisas funcionam assim, nos plenários a corrupção é bem maior.
Cada eleitor que vende o seu voto não está prestando serviço a si próprio, mas
a quem pagou pelo voto, ou seja, quem financiou a campanha. Quando se postula
um cargo eletivo, a pergunta que se faz não é quais são as propostas do
candidato, mas de quanto dinheiro dispõe. Sem dinheiro não se ganha eleição. As
pessoas simples não votam em seus semelhantes, mas em seus desiguais. -Como vou
colocar lá um ignorante como eu?- perguntam-se. Este pensamento até poderia
estar correto, desde que o candidato tivesse um compromisso com seus eleitores.
O voto não seria vendido, mas cedido. Se o candidato, eleito, não cumprisse seu
compromisso, teria de prestar contas nas próximas eleições. Hoje quando um
deputado diz que precisa consultar suas bases onde
vai? _ favela, ao bairro? Não. Vai falar com seus patrocinadores.
É
contra isso que você deve lutar. Quando disserem lhe que você não pode postular
um cargo, um emprego, um elogio, responda com outra pergunta: - E o que é
preciso para que eu possa? - Exija a resposta, e não se conforme se alguém lhe
responder que o requisito é dinheiro ou sobrenome, coisas que você não tem. Vá