Revolta


Eu sou a voz que vem das ruas (e ninguém ouve).
Não há quem lute pelo meu bem (e nunca houve).
Você continua aprontando das suas (não há quem prove).
Sou a consciência que você não tem (ou que não ouve).

Eu sou o pobre que passa fome (que nunca come).
Não tenho um só dia de sossego (e você some).
Nem posso ser chamado de homem (sou lobisomem),
Porque você não me deu um emprego (e eu com fome).

Sou o doente que morre sem atendimento (medicamento).
Você não imagina o meu desespero (que atrevimento)
Aqui neste hospital, tanto sofrimento (tanto lamento),
Porque você não mandou o dinheiro (do orçamento).

Sou a criança desnutrida (que quer comida),
Sem escola e sem sorriso (quase sem vida).
Esquecida, mal assistida (desiludida),
Sonhando com o paraíso (que atrevida).

 

Sou o caboclo que espera (se desespera).

Que tem tantas necessidades (tanta esperança).

Minha vida, tanta quimera (tanta miséria).

Não encontro boa-vontade (tanta sujeira).

 

Eu moro num acampamento (no acostamento)

Sem nenhum pingo de esperança (que sofrimento).

Quero ir para um assentamento (com saneamento),

Quero'escola para'as crianças (fim do tormento).

 

Quero semente para plantar (eu quero comprar)

E cultivar dignidade (e poder pagar).

Quero ficar no meu lugar (não quero mudar),

E não ser mais um na cidade (aqui vou ficar).

 

 

Este poema tem uma continuação que ainda não consegui ajeitar, mas que, pela expressividade e pelo peso de suas palavras, convém acompanhar. Aí vai:

 


Sou favelado que espera essa nova era, qualquer milagre que me tire logo daqui.
E você aí num gabinete bem bacana, cheio de grana,
Cheio de gente que lhe chama de doutor.
E sem pudor vai se esquecendo que fui eu que coloquei você aí pra me tirar daqui.
Para fazer deste um lugar melhor pra se viver, eu e você.
Mas parece que esse posto, que esse gosto de estar aí nesse lugar, fez você esquecer que eu lhe elegi.
Não entendi quando você desapareceu e esqueceu sua promessa.
Foi bom à beça, você veio à minha casa e pareceu ser meu amigo.
Fomos à rua e protestou junto comigo, dizendo: amigo, quero um mundo novo para viver!
E você foi se esquecer. Pegou meu voto e foi morar noutro lugar.
Pra me ajudar, pra melhorar, você prometeu.
E esqueceu até meu nome.
Parece que nem me viu passando fome, morando num casebre, palafita.
E você aí, numa casona tão bonita,
Vivendo com essa gente que acredita
que isso nunca vai mudar.
Pode esperar, pois um dia essa mamata vai acabar.
Um dia você vai ter que voltar e me encarar.
Pois um dia eu também terei que voltar a outro lugar.
E nesse dia eu espero que eu tenha aprendido, de tão sofrido,
Espero que eu não tenha esquecido, seu fingido.
Espero que eu não queira mais errar.
Pois eu vou tirar você desse lugar.
Espere, um dia eu vou saber votar.

 

 

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