4.

Chegou à universidade. O campus era enorme. Prédios e prédios espalhados por entre as alamedas. Árvores centenárias davam ao lugar um ar puro e de aparente tranqüilidade. Logo entrou no bloco do curso de História, onde estudava. Ali o clima urbano era restabelecido e centenas de estudantes transitavam pelo saguão e corredores.

Tomou o rumo da sala onde faria a primeira prova e no corredor quase tropeçou num senhor de idade que vinha em sentido oposto. Era estranha a presença de alguém tão velho ali. Um velhinho com bengala, andando devagar pelos corredores. Seria um novo professor? Mas tão velho? Gisela não tinha muito tempo para pensar nisso, pois a prova começaria em poucos minutos. Logo deixou a curiosidade de lado e esqueceu o velho homem, sem perceber que este a observava afastar-se apressada.

No meio da tarde, com a biblioteca lotada, Gisela estava imersa no trabalho, sempre preocupada em atender bem quem procurasse algum livro e, também, cuidar para que ninguém subtraísse o patrimônio da universidade.

Percebeu que o velho homem com o qual havia tropeçado pela manhã entrou na biblioteca. Não pôde, entretanto, dar-lhe atenção, porque sua mesa estava rodeada de estudantes naquele momento. Mesmo assim seus olhos seguiram a passagem do velho que foi resoluto até um corredor, no qual entrou e voltou logo, com um livro na mão. Sentou-se a uma mesa e começou a ler. Era normal que os professores freqüentassem a biblioteca central. Nem mesmo a chefe de Gisela estranhou. Talvez fosse um professor aposentado ou o pai (ou avô) de alguém que estava em sala de aula, e estivesse ali fazendo hora, esperando.

Quando o movimento de estudantes diminuiu, Gisela foi guardar os livros que ficaram sobre as mesas. Já estava desenvolvendo alguma habilidade nisso, mas era preciso se concentrar para não errar. Um livro em lugar trocado dificultaria em muito a localização e somente seria encontrado se alguém o retirasse do lugar novamente para consulta ou, pior, se a chefe passasse e visse que algo não estava certo. Era incrível a capacidade da professora Wanda em detectar erros. Parecia conhecer todos os livros de todas as prateleiras. E quando encontrava algo fora do lugar reunia os funcionários e bolsistas e fazia uma verdadeira tortura verbal, lembrando a todos que a ordem era o único meio de se manter uma biblioteca tão grande.

- Quase me esqueci de como você era linda!

Gisela deu um salto ao ser despertada de sua concentração pelo homem que a observava. Para sua surpresa era o velhinho de bengala, que lhe entregava um livro.

- O senhor pode deixar o livro na mesa, que depois a gente guarda - falou intuitivamente, pensando em se esquivar da cantada inusitada.

- Este não é para guardar, é para ler - respondeu gentilmente o homem, fitando-a nos olhos. Gisela pegou o livro e agradeceu a indicação, enquanto o velho virava as costas e saía lentamente.

- Que homem estranho! - pensou em voz alta.

Olhou para o livro que estava em suas mãos - 'Amor de Perdição', de Camilo Castelo Branco - um romance clássico e pouco procurado pelos estudantes modernos. Por que deveria ler aquele livro? Que pretensioso aquele velho ao tentar lhe impor a leitura de um livro tão antigo quanto ele próprio. Abriu a capa e encontrou uma dedicatória antiga. Não lhe surpreendeu, porque vários livros da biblioteca vinham de doações de acervos particulares. O susto, contudo, veio ao constatar que a letra que escreveu a dedicatória era a sua.


 

 

                                   5.

"Meu amor por ti é assim: profundo como o de Tereza, de entrega como o de Mariana.

Não quero que nossa história termine como a deste livro, mas quis mostrar-te algo parecido com o meu sentimento.

Amo-te como nunca amei ninguém. Nada do que vivi antes de ti tem significado para mim. O verbo 'amar' é sinônimo de 'nós dois'.

Amo-te com toda a força do meu ser. Transpiro este amor por todos os poros do meu corpo. O brilho de meus olhos reflete o encantamento de minha alma.

Cada nascer do sol, cada batida de meu coração só tem sentido se for para viver este amor.

Da sempre tua:

Gisela! maio, 1956"

 

- Não é justo, amiga! - disse Amanda ao ler a dedicatória no livro que Gisela tomara emprestado na biblioteca onde trabalhava. - Você encontrou um amor assim e nunca me disse nada?

- Isso foi escrito há cinqüenta anos - contestou Gisela. - Eu nem havia nascido. Minha mãe nasceu nesse ano.

- Eu não entendo. Isso não é possível. Não tem lógica nenhuma!

- Se você não entende, imagine como eu estou me sentindo com isso!

- E esse velho? Quem é ele? De onde surgiu?

- Não sei, Amanda. Não faz nenhum sentido pra mim. Um velhinho surgir do nada e me mostrar um livro que estava na biblioteca central com a minha letra.

- Bem, amiga! Vamos organizar nossos pensamentos. Essa caligrafia é sua mesmo. Todos os detalhes e o nome. Não dá pra dizer que alguém com a letra parecida com a sua tenha escrito. Algumas coisas não se encaixam e não vamos conseguir entender. Então temos que começar a busca pelas pistas que estão ao nosso alcance.

- De que pistas você está falando?

- A primeira é esse livro. Como foi que ele chegou à biblioteca?

- Isso eu já pesquisei. Ele foi doado. Muita gente doa livros que estão ocupando espaço em suas casas. Não é raro encontrar livros com dedicatórias.

- E quem doou?

- Impossível saber. Como eu disse, muita gente manda livros para a biblioteca.

- Não tem um registro de doadores?

- Tem um livro de registro, sim. Eu o chequei. Mas ele contém somente o nome, a data e a quantidade de livros doados. Não traz os títulos.

- Então só nos resta a segunda pista: o velho! Temos que saber quem ele é.

- Eu nunca o vi antes. Tenho certeza disso.

- Como ele era? Como se vestia?

- Como um senhor distinto - disse forçando a memória. - Um professor, sei lá! Ele estava vestindo um terno com colete. Tinha uma bengala. Parecia alguém da universidade, demonstrava uma elegância antiga e sóbria.

- E o que ele disse?

- Ele disse para eu ler o livro.

- Então você tem que ler. Mas não pode ser algo tão obscuro. Ele não disse mais nada?

- Não. Quando olhei para o livro ele virou as costas e foi embora.

- Que história maluca. Será que ele queria que você lesse o livro ou a dedicatória? Será que sabia quem você era?

- Espere, lembrei de uma coisa. Eu estava guardando livros quando percebi a sua presença perto de mim. Ouvi uma voz dizer 'Não lembrava como você era linda'. Senti um perfume muito agradável antes de me virar e perceber que era o velho que falara. Levei o maior susto porque ele estava perto demais de mim, com o livro na mão. Fiquei nervosa e pedi a ele para deixar o livro na mesa, que depois alguém guardaria. Acho que ele percebeu o meu constrangimento. Por isso falou 'não é para guardar, é para ler' e saiu em seguida. Agora eu me culpo porque não falei mais nada. Porque não abri o livro na hora. Porque não corri atrás dele e perguntei o que queria que eu lesse.

- Calma Gisela. Você não pode voltar no tempo. Só pode lembrar do que aconteceu e decidir o que vai fazer daqui pra frente. Você já conseguiu lembrar de mais algumas coisas, como o cheiro do velho e suas palavras antes de você olhar para ele. O que será que quis dizer? Se ele lembrou da sua beleza é porque já a conhecia. Você não o conhecia, mas ele já a viu em algum lugar.

- Será que é algum amigo do meu avô? Eu não consigo lembrar dele. Meu avô só tinha amigos fazendeiros. Esse velhinho misterioso não me pareceu um homem rude. Parecia um 'gentleman'. Com toda certeza não era alguém do interior.

- Amanhã saberemos. Tenho a impressão de que ele vai aparecer de novo.

Amanda costumava ter pressentimentos que se realizavam. Já era tarde e resolveram dormir. Gisela ainda tentou ler um pouco do livro, mas a linguagem rebuscada do século XIX não a deixou ir muito longe. Adormeceu com o livro aberto na mão.

No dia seguinte Gisela esperou ansiosa pelo aparecimento do velhinho. Como estava ansiosa, experimentou perguntar aos colegas que trabalhavam na biblioteca se o haviam visto ou sabiam quem era. Inútil, ninguém reparara na insólita presença do dia anterior. A única que deveria saber era a Professora Wanda, mas Gisela não se julgava com intimidade suficiente para falar com ela sobre o velhinho. Preferiu esperar que o pressentimento de Amanda se concretizasse e que o homem entrasse pela porta.

Felizmente havia feito as provas no dia anterior, pois não conseguia pensar em mais nada. Estava ansiosa para desvendar o mistério que pairava em sua cabeça. O homem poderia ter sido um namorado de sua avó nos tempos de juventude. Todos diziam que Gisela era muito parecida com a avó. Nunca viu a caligrafia da ‘Nona’, para saber se era parecida com a sua. Se fosse assim o mistério estaria resolvido. Mas e o nome? Como é que o seu nome foi parar no livro? A ‘Nona’ não se chamava Gisela, nem por apelido.

A tarde passou lentamente e o homem não apareceu. Não restava outra alternativa senão perguntar à Professora Wanda, pois não queria deixar passar tempo suficiente para que esta esquecesse, se é que lembrava.


 

 

                                    6.

- Você deve estar falando do professor Souza. Ele lecionou literatura por quarenta anos e depois se aposentou. Mesmo assim vem de vez em quando - disse a Professora Wanda, tão logo Gisela começou a descrever. - Mas porque está perguntando dele?

- É que ele me abordou ontem e recomendou a leitura de um livro.

- Ah! Então é isso! O Professor Souza doou todo o seu acervo para a biblioteca há alguns anos. Desde então, vem aqui de vez em quando consultar os próprios livros. Que livro ele recomendou a você?

- Amor de Perdição, de...

- Camilo Castelo Branco! É um dos seus prediletos. Fui sua aluna e ele dizia em suas aulas que viveu um amor de perdição. Desde a perda desse amor nunca mais se apaixonou.

- Que romântico. Mas como ele perdeu o amor?

- Ninguém sabe. Quando tentávamos saber detalhes o professor desconversava. Ele é um homem solitário até hoje.

- Que triste isso, professora. Será que ele conta se eu perguntar?

- Não deve aborrecer as pessoas que freqüentam a biblioteca, mocinha. Agora volte ao seu trabalho.

A informação da chefa só fez aumentar a curiosidade de Gisela. Pelo menos já sabia o nome do velhinho, o          que ele fazia e, melhor, que voltaria. Poderia conversar com ele - desde que não o aborrecesse - e tentar entender como foi feita a dedicatória do livro que lhe entregou na véspera.

Mergulhou no trabalho e nem percebeu que a tarde passou. Quando se deu por conta já era hora de ir embora. Saiu da biblioteca frustrada pela ausência do ancião. Curioso como alguém desconhecido pode, de repente, se inserir no contexto de nossas vidas e se tornar esperado ansiosamente.

Naquela noite teve sonhos esparsos, quase todos envolvendo o velhinho misterioso. Em cada um deles recebia uma versão diferente para a dedicatória do livro. Acordou assustada quando sonhou que recebera a notícia de que o Professor Souza estava morto. Chorava convulsivamente, como se o morto fosse seu parente próximo. Tentou se acalmar e convencer a si própria de que era simplesmente um sonho. Não dormiu o resto da noite. Se aquele homem demorasse a aparecer ficaria louca. Quando o despertador tocou já estava acordada, esperando o momento de voltar ao campus.

Andou pelos corredores com a impressão de que iria tropeçar no velhinho, mas não teve sorte. Mais tarde, na biblioteca, olhava ansiosamente para a porta e mal conseguia se concentrar no trabalho. Cochilou sem perceber, rendendo-se ao cansaço da madrugada mal dormida.

- Se a professora Wanda pegar você dormindo aqui vai ficar zangada.

Acordou assustada, buscando a voz que a advertira e se misturara com seu sonho. Sentiu um perfume familiar, agradável... e a frase parecia ter sido dita pelo...

- Professor Souza! Desculpe. Eu dormi mal a noite passada...


                                   7.

- Não precisa explicar. Entendo bem de noites mal dormidas - respondeu o homem sentado na cadeira em frente à sua escrivaninha. Gisela esperara tanto por ele e, de repente, estava ali acordando-a.

- É que eu estava esperando...

- Também entendo de esperar. Afinal, esperei muito por você!

- Esperou por mim? Como assim? Eu nunca vi o senhor antes.

- Então como explica a noite mal dormida?

- Não. Deixa eu explicar. Nunca vi o senhor antes de anteontem.

- Eu sei disso - replicou o velho com uma voz terna. - Na verdade sei tudo a seu respeito e tive que esperar o momento exato de encontrá-la.

- Momento exato? Sabe tudo de mim? Não estou entendendo nada.

- É que nossas vidas se encontraram num outro momento e tudo o que está acontecendo agora você já me contou com detalhes.

- Professor. Eu não acredito em reencarnação.

- Não é reencarnação!

- Como não é? Está falando de vidas passadas e diz que não é isso?

- Não é nada disso que você está pensando. Você não viu a dedicatória no livro?

- Vi. Até agora não entendi como a minha caligrafia foi parar lá! - Gisela engoliu em seco a constatação. As perguntas cessaram diante do emaranhado de pensamentos e dúvidas em sua cabeça.

- Eu e você fomos vítimas de uma brincadeira do tempo - disse o professor calmamente, diante do silêncio momentâneo de sua interlocutora. - Você será arrastada no tempo dentro em breve. Irá parar nos dias da minha juventude, quando eu tinha a sua idade.

- Uma viagem no tempo? Como isso é possível?

- Estudei a fundo e jamais consegui descobrir. Todas as teorias esbarram no improvável ou no impossível. Durante cinqüenta anos eu tentei viajar no tempo para antecipar este momento, mas não consegui.

- Supondo que esteja dizendo a verdade, como então eu poderei viajar no tempo?

- Você é sempre desconfiada - riu o homem gentilmente, como se conhecesse e entendesse o jeito de Gisela - Acredite em mim. Um fenômeno involuntário vai transportar você.

- Que fenômeno será esse?

- Eu não sei. Você não soube me dizer. Na verdade conversamos muito pouco sobre isso.

- E sobre o que conversamos? - perguntou Gisela, cada vez mais curiosa para saber onde aquela conversa iria dar.

- Conversamos sobre tudo. Você me ensinou muitas coisas, garota do futuro! - Gisela sorriu encabulada diante do tom carinhoso com que o homem pronunciou estas palavras.

- Acho que vou enlouquecer. Nada do que está dizendo faz sentido pra mim. Se não fosse a minha letra naquele livro eu diria que o senhor está maluco.

- Não me chame de senhor! Não suporto essa peça do tempo.

- Deixa eu ordenar meu raciocínio. O senhor... desculpe... Você disse que vou viajar no tempo, certo? - o velho assentiu com a cabeça - Sabe quando isso vai acontecer?

- Cartesiana[1] como sempre – riu. – Isso vai acontecer ainda hoje.

- Ainda hoje? Não pode ser. Não estou preparada!

- Calma Gisela. Vai acontecer independente da sua vontade.

- Mas porque não veio antes? Esperou minha vida toda e vem agora no último dia? Podia ter-me preparado melhor!

- Tinha que ser assim. Eu não quis mudar uma vírgula da história que você me contou. Seu avô, seu pai, a vinda para cá, o desespero para sobreviver e dar uma vida melhor para sua mãe e irmãos, o choro trancada nos banheiros. Acompanhei toda a sua história de longe sem poder intervir, mas sempre estive por perto.

- Sempre esteve por perto? - seus olhos não contiveram uma lágrima ao imaginar o silencioso observador.

- Estive. Pode ter certeza que não esteve sozinha.

- E como eles ficam se eu viajar no tempo? Não posso abandoná-los.

- Você é mesmo maravilhosa. Pensa nos seus o tempo todo - o professor deixou a moça lisonjeada com a constatação. - Estou preparado para ajudar. Vou mandar o mesmo valor que você vem mandando, até que volte.

- E quando vou voltar?

- Lá vem a cartesiana de volta - riu o homem, com um sorriso jovial surpreendente, que encantou Gisela.

- Não é que eu seja sempre cartesiana. Eu só preciso saber quanto tempo vou ficar fora. Não posso largar tudo e mergulhar numa viagem assim.

- Isso eu não sei dizer, porque o seu retorno faz parte de um futuro que ainda não vivemos.  Não sei se o tempo que ficou no passado será o mesmo que ficará ausente daqui. Eu particularmente torço para que não seja e você volte hoje mesmo. Mas, como eu disse, estou preparado para amparar a sua família, mesmo que não voltemos a nos ver.

- E a Amanda?

- Pensei nisso também. Aqui tem um envelope com o valor de duas vezes a sua parte no aluguel e demais despesas do apartamento. Também tem um cartão com o meu número de telefone. Peça a ela que me chame se precisar de algo.

- Devo entender que vou ficar dois meses fora? Meu Deus! Vou perder meu emprego!

- Foi esse o tempo que tivemos no passado. Dois meses de felicidade e cinqüenta anos de espera. Não se preocupe quanto ao seu emprego. Eu pessoalmente vou falar com a Professora Wanda e me oferecer para substituí-la enquanto você estiver “viajando”. Duvido que ela recuse um pedido meu.

- Que bom! Eu também duvido, pois ela o respeita muito. Posso saber para que ano e lugar vou voltar?

- 1956, nesta mesma cidade.

- E o que devo fazer? Aonde devo ir?

- Procure-me aqui mesmo na universidade. Eu estarei aqui nesta biblioteca. Era onde eu fazia meus trabalhos e passava a maior parte do tempo. Quando você entrou eu estava vestindo um terno de linho branco, sentado numa mesa que ficava ali - apontou para um local onde estavam umas estantes com livros. - O acervo era bem menor naquela época.

- E o que aconteceu então?

- Mais ou menos o que está acontecendo agora. Você me abordou e explicou que havia chegado do futuro. Confesso que também achei muito estranha a sua história.

- Mas acreditou em mim?

- Não muito. Mas eu estava gostando de ser abordado por uma moça tão linda. Isso não era normal na época. Só depois fui constatando que você falara a verdade.

- Você está tão empolgado que até me convence. Seus olhos brilham como os de um adolescente quando está falando.

- Ainda me emociono quando lembro daqueles momentos. Como eu disse, esperei muito tempo por este dia.

- Conte-me mais sobre o que se passou.

- É melhor que você constate pessoalmente. Leve este dinheiro da época. - Estendeu a mão entregando um envelope, que parecia conter muitas cédulas antigas. - Tem muito mais aí do que eu ganharia em meses. Eu era um estudante e vivia da mesada que meu pai mandava do interior. Você foi preciosa pagando toda a nossa despesa. Isso também não era normal. Só aceitei sua generosidade quando você disse que eu mesmo é que estava pagando tudo.

O homem entregou a Gisela uma chave e disse:

- É de um armário do vestiário feminino no Ginásio de Esportes. Tem uma sacola com roupas da época. Tenho certeza que cairão muito bem em você. Use o dinheiro também para comprar mais roupas. Hospede-se no Hotel Central - naquele tempo era novo. - Vão lhe dar o quarto número 315.

- Confesso que estou muito confusa e assustada com tudo isso.

- Eu também, minha querida. Mas vai acontecer e nada podemos fazer contra o destino.


                                   8.

Gisela praticamente arrancou Amanda da sala onde fazia aula de recuperação. Por sorte a amiga estava ali naquela tarde. Contou tudo o que ouvira do professor Souza e entregou o envelope com o dinheiro para as despesas de dois meses.

- Meu Deus, Gisela. Esse velho está esclerosado. Devolva o dinheiro a ele.

- Não é possível, Amanda. Ele foi tão convincente. Falou de um jeito que não dava pra desconfiar.

- Você também está louca. Só falta dizer que se apaixonou pelo velho. Ele deu atenção, dinheiro e você vai cair na conversa dele.

- Não, sua boba. Só tenho que dar um voto de confiança. Ele não pediu nada.

- Não pediu por enquanto, você quer dizer!

- Bem, só temos que esperar até amanhã. Ele falou que a viagem no tempo vai acontecer ainda hoje.

- OK. Então vamos ver o que tem no vestiário.

Entraram no ginásio e foram diretamente ao vestiário feminino, evitando conversar com os colegas que jogavam uma partida de vôlei. Felizmente não havia ninguém no vestiário. Abriram o armário e encontraram uma sacola com algumas roupas. Gisela provou uma blusa, que lhe serviu perfeitamente.

- Está vendo? Ele sabe até o meu manequim.

- Grandes coisas. É o mesmo que o meu e de muitas garotas - disse enquanto provava outra blusinha. - Veja que legal essa saia. Parece uma que a minha avó usava.

As duas foram vestindo as peças e, quando se deram conta estavam como nos anos 50. Amanda, com seu jeito expansivo, começou a brincar e Gisela entrou no clima de brincadeira. Passaram, então a desfilar em frente ao espelho, trocando peças e fazendo combinações.

A porta se abriu e entraram várias moças. Quando as duas pensaram em se esconder, envergonhadas por estar com aquelas roupas antigas, tiveram uma grande surpresa. As moças estavam vestidas como elas.


                                   9.

Gisela e Amanda se entreolharam sem entender direito o que estava acontecendo. As outras moças estavam vestidas como elas e não havia nenhuma festa a fantasia naquela tarde. O barulho da conversa de tanta gente era muito grande e ninguém percebeu que as duas estavam deslocadas ali. Ficaram observando as meninas trocando de roupa, colocando uniformes de corte antigo, no estilo do que se usava nos anos 50. Saíram do vestiário e perceberam que todos ali estavam vestidos com roupas do passado. O ginásio parecia mais novo. Os amigos e professores que haviam visto ao chegar não estavam mais ali.

Não havia mais dúvida. Viajaram no tempo e estavam em outra época. Mas o que Amanda estava fazendo ali? O Professor Souza não havia dito nada sobre a sua presença. Ao contrário, até mandou dinheiro para que ela pagasse as despesas da casa.

Olharam-se e instintivamente começaram a correr em direção ao bloco da biblioteca central, imaginando que havia um encontro marcado naquele local. Gisela deveria encontrar um homem de terno de linho branco e contar a ele o que ocorrera. Na pressa antecipou-se a Amanda e somente percebeu a distância entre ambas quando ouviu um barulho de freada e olhou assustada para trás.

Um carro havia atropelado Amanda e arremessado seu corpo ao chão. Gisela voltou correndo e encontrou a amiga ainda consciente.

- Era só o que faltava, ser atropelada em 1956 - disse, ainda encontrando humor para brincar diante da tragédia.

- Não se mexa, amiga! Vou buscar socorro.

- Deixa que alguém chame. Vai encontrar o seu bonitão!

- De jeito nenhum. Não te deixo aqui por nada.

Em poucos minutos centenas de estudantes cercavam as duas moças. O motorista, muito assustado, tentava explicar sua inocência. Chegou a ambulância e Amanda foi removida ao Pronto Socorro. Gisela a acompanhou. Não deixaria sua melhor amiga sozinha numa situação daquelas, muito menos após terem feito uma incrível viagem no tempo. Logo depois que foi colocada na ambulância, Amanda ficou inconsciente. O paramédico disse que era efeito do forte analgésico que lhe aplicou logo que chegou ao local do acidente. Gisela estava muito assustada e tensa, mas rejeitou qualquer calmante, pois não queria perder a atenção ao que acontecia. Numa situação extrema como aquela era importante que ela estivesse pronta para agir e tomar decisões, pois não tinha a quem recorrer.

Depois de algum tempo na sala de espera - que pareceu uma eternidade - um médico veio avisar que Amanda seria submetida a uma cirurgia, embora sua vida não estivesse em perigo. Os médicos operariam a sua perna direita, que sofrera fratura exposta. Gisela chorou muito ao saber disso. Não podia revelar sua desconfiança quanto aos recursos da época. E se ficasse alguma seqüela? Se Amanda tivesse uma gangrena e perdesse a perna? Quanto mais pensava, mais chorava, tendo rejeitado qualquer remédio que lhe oferecessem. Permaneceu daquele jeito, chorando e rezando, até que uma enfermeira passou e avisou que a cirurgia terminara e sua amiga estava bem. Pouco tempo depois soube que a levaram para a enfermaria.

- Já é tarde, moça. Ela está sedada e só vai acordar pela manhã. Pode ir pra casa. Venha logo cedo que eu a deixarei vê-la fora do horário de visitas - disse a enfermeira.

 Só então foi que Gisela se afastou do hospital, embora continuasse preocupada com os resultados da cirurgia. O Hotel Central ficava perto. Por isso confiou em sair, não sem antes pedir que lhe chamassem se algo acontecesse com Amanda.

- Seja bem-vinda, Senhorita Gisela. A sua bagagem é só essa sacola? - perguntou o recepcionista depois de ler a ficha que acabara de preencher.

- Sim. Eu vim para ficar poucos dias, mas a minha amiga sofreu um acidente. Agora terei que comprar mais roupas. - Embora não devesse satisfações, achou melhor contar uma história convincente, para evitar especulações.

- O menino vai lhe acompanhar. O seu quarto é o número 317.

- 317? Não seria o 315?

- O 315 foi ocupado há uma hora. Algum problema com o 317?

- Não. Está tudo bem. É que eu tive um pressentimento de que ia me dar o 315. Sou meia vidente, sabe?

- Entendo - sorriu o rapaz, mesmo sem entender, enquanto Gisela se afastava.

Não conseguiu dormir naquela noite, apesar de todo o cansaço. Era a segunda noite que passava acordada. A primeira no ano 2006 e a segunda em 1956. Duas noites separadas por cinqüenta anos, mas unidas pela viagem fantástica de Gisela e Amanda. Como isso seria possível? Como teriam se deslocado no tempo sem que percebessem? Por que Amanda teria passado pelo mesmo fenômeno? As coisas não estavam acontecendo do jeito que o Professor Souza dissera. Por alguma razão inexplicável o deslocamento no tempo havia ocorrido com duas pessoas e isso mudava qualquer certeza que pudesse ter. O encontro na biblioteca não fora possível naquela tarde. O quarto que ocupara no Hotel Central já não era o mesmo. Até que ponto isso mudaria o rumo dos acontecimentos? Tudo era inexplicável, tudo era uma incógnita. Sua única certeza era de que retornaria ao seu tempo, pois o Professor dissera que permaneceria por dois meses. Mas se as coisas não estavam acontecendo conforme o velho dissera, também podia não estar no lugar certo na hora da viagem de volta. Pior seria voltar sem Amanda. A viagem certamente a incluiu porque estava com Gisela naquele vestiário, usando roupas da época. Se estes fossem os fatores que deflagraram a viagem, deveriam estar juntas na hora de retornar. Mas, como dizia a sua amiga, algumas coisas não se encaixavam. Era preciso viver os momentos seguintes para saber em que iam dar.


                                   10.

- Menina, você precisa ver os residentes que tem neste hospital – disse Amanda ao ver a amiga entrar na enfermaria com ar de preocupada.

- Credo, Amanda! Você me prega o maior susto e já está de olho nos homens. Parece a Patrícia.

- Nem me fale naquela piranha interesseira. Eu só olho, mas estou adorando ser tratada por eles. Faz tempo que não vejo homens assim, másculos. Acho que no nosso tempo a invasão dos metrossexuais está tirando o encanto masculino.

- Deixa essa conversa pra lá, Amanda. Quero saber como você está.

- Ai, estou bem. O médico disse que vou passar uns sessenta dias de molho, mas que em uma semana saio daqui.

- Estou preocupada. Não sei como você veio parar aqui comigo. O Professor não falou que você viria. Ao contrário, até lhe mandou dinheiro para pagar as contas enquanto eu estivesse fora.

- É mesmo, né? Será que foi porque eu estava vestida com as suas roupas?

- Também pensei nisso. Mas agora não temos certeza de mais nada. Perdi o encontro na biblioteca. Quando cheguei ao hotel o quarto que eu deveria ocupar já não estava disponível.

- Então, Gisela, viva a sua história. Deixe as coisas fluírem naturalmente.

- Mas como vou deixar fluir naturalmente se a nossa presença aqui não é natural?

- Sei lá. Eu vou fazer a minha parte aqui, cuidando desses residentes sedentos de amor – riu – e conversando com meus colegas de enfermaria.

- Tem razão. Não podemos ficar imaginando o que pode acontecer. O negócio é ir à luta.

- Essa é a Gisela que eu conheço. Vai lá naquela biblioteca e mostra ao seu bonitão como você é quente! – riram juntas, acordando as colegas de enfermaria de Amanda, que olharam com ar de reprovação.

Entrou na biblioteca. A sala era a mesma, mas surpreendeu-se com a quantidade de livros que viu. Eram muito poucos se comparados ao que Gisela estava acostumada a ver todos os dias. As estantes ocupavam um pequeno espaço e as mesas eram espalhadas por quase todo o salão, bem distante uma da outra, chegando a fazer eco o menor ruído que se produzisse ali dentro.

Olhou para a mesa na qual deveria estar o homem de terno branco. Não estava lá. Sentiu um desalento muito grande por causa desse desencontro. Estava só e não sabia o que fazer. Se ao menos Amanda estivesse com ela, sentir-se-ía melhor.

- Posso ajudá-la em alguma coisa, Senhorita? - perguntou, solícita, a bibliotecária.

- Não, obrigada - respondeu. - Só estou procurando um homem de terno branco.

- Todas estamos, querida - brincou. - Mas você não terá dificuldade. O linho branco está na moda. Há muitos homens de terno branco por aí. Como é o nome desse que está procurando?

- É Souza.

- Souza? Só Souza? Não tem um primeiro nome?

- Só agora estou me apercebendo que esqueci de perguntar o primeiro nome. Eu o conheci apenas como Professor Souza.

- Acho que vai encontrá-lo na sala dos professores, meu bem. Eu não conheço nenhum professor com esse nome, mas os professores raramente vêm aqui.

- Obrigada. Vou ficar um pouco e ler um livro - falou Gisela, meio sem jeito.

- Fique à vontade, meu bem. Se precisar de alguma coisa é só chamar.

Entrou num corredor entre as estantes de livros, querendo sair do alcance da vista da bibliotecária. Embora a mulher fosse gentil, não soube como dizer a ela que o homem que procurava não era ainda um professor, mas um estudante. A informação, contudo, foi mais frustrante para Gisela, pois soube que muitos homens usavam terno de linho branco. Teria de confiar na memória para encontrar as feições do velho professor. Estava curiosa para ver como seria aquele homem aos vinte anos de idade. Será que se apaixonaria por ele com aquele amor de perdição da dedicatória?

Lembrou, então do livro e o procurou na estante dos romances. Havia cinco exemplares e nenhum continha a dedicatória com a sua caligrafia. Pegou um deles e começou a ler. Queria saber que amor era aquele que podia ser comparado ao seu. Afinal, se não conhecia o livro, como pudera escrever algo falando de seus personagens. Isso fazia sentido. Devia conhecer a história do 'Amor de Perdição'.

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[1]

Cartesiana = que ou o que se caracteriza pelo bom senso e a seriedade próprios do pensamento de Descartes.

 

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